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domingo, 14 de abril de 2013

OS ANIMAIS NO ADAGIÁRIO NACIONAL - I

José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos

1.               A águia não caça moscas.
2.               A aranha vive do que tece.
3.               A aranha vive do que tece.
4.               A carangueja ao atá quer brincar.
5.               A necessidade faz o sapo pular (ou saltar).
6.               A aranha, da boa flor, faz peçonha.
7.               A ave de bico encurvado, guarda-te dela como do diabo.
8.               A besta comedeira, pedras na cevadeira.
9.               A besta louca, recoveiro maduro.
10.           A besta que muito anda, não falta quem a tanja.
11.           A boi velho não busques abrigo.
12.           A boi velho não cates abrigo.
13.           A boi velho, capim fresco [novo].
14.           A boi velho, chocalho novo.
15.           A burra do vilão mula é no verão.
16.           A burra velha, cilha nova.
17.           A burro velho, albarda nova.
18.           A burro velho, cangalha nova.
19.           A burro velho, capim novo
20.           A cão danado, todos a ele.
21.           A cão fraco acodem as moscas.
22.           A cão grande, grande osso.
23.           A cão mordido todos chicoteiam.
24.           A cão, gaviãozão.
25.           A carangueja ao atar quer brincar.
26.           A carne de lobo, dente de cão.
27.           A carneiro capado não apalpes o rabo.
28.           A cavalo comedor cabresto curto.
29.           A cavalo dado não se abre a boca.
30.           A cavalo dado não se olham os dentes para não levar mordida.
31.           A cavalo magro vêm as moscas.
32.           A cavalo novo, cavaleiro velho.
33.           A cavalo velho, capim novo.
34.           A cobra maior engole a menor.
35.           A cobra quando entra n'água, deixa o veneno em terra.
36.           A cobra se oculta debaixo da erva.
37.           A coelho ido conselho vindo.
38.           A coruja acha seus filhos lindos.
39.           A coruja gaba seu toco.
40.           A cotia ficou sem rabo de tanto cumprimentar.
41.           A formiga ainda pequena mata o crocodilo.
42.           A formiga quando quer se perder, cria asas.
43.           A formiga sabe a folha que rói.
44.           A gado que rói, nunca faltaram farrapos.
45.           A galinha da minha vizinha é mais gorda que a minha.
46.           A galinha da minha vizinha sempre é melhor do que a minha.
47.           A galinha da vizinha põe mais ovos que a minha.
48.           A galinha não põe pelo papo, senão pelo galo.
49.           A galinha o bicho come; a mulher dá que falar.
50.           A galinha onde tem os ovos, tem os olhos.
51.           A galinha que canta como galo corta-se-lhe o gargalo.
52.           A galinha tem os olhos onde tem os ovos.
53.           A galinha velha dá bom caldo.
54.           À galinha, aparta-lhe o ninho, pôr-te-á o ovo.
55.           A gato pintado não se confia a guarda do assado.
56.           A gato velho camundongo novo.
57.           A lebre é de quem a levanta, e o coelho de quem o mata.
58.           A macaco velho não se ensina a fazer caretas.
59.           A mosca nunca pousa senão na fraqueza.
60.           A mula boa, como a viúva, deve ser gorda e ligeira.
61.           A mula com mataduras, nem cevada nem ferraduras.
62.           A mula de vilão, mula é de verão.
63.           A mula e a mulher com afagos fazem os mandados.
64.           A mula e a mulher com pau se quer.
65.           A mula velha, cabeçada nova.
66.           A mula, com afago; o cavalo, com castigo.
67.           A mulher andeira diz de todos, e todos dizem dela.
68.           A ovelha lazarenta gosta de beber na nascente.
69.           À ovelha louçã disse a cabra: dá-me a lã.
70.           A ovelha mais ruim, é a primeira que berra.
71.           A ovelha pior do bando é a primeira que espirra.
72.           A ovelha pior do bando é a que espirra.
73.           A ovelha que é do lobo, Santo Antônio não a guarda.
74.           A ovelha que não tem dono, come-a o lobo.
75.           A pássaro dormente, tarde entra o sebo no ventre.
76.           A porca ruiva o que faz, isso cuida.
77.           A porco gordo, unta-se-lhe o rabo.
78.           A preguiça anda tão devagar, que a pobreza logo a alcança.
79.           A preguiça caminha tão devagar que a pobreza em pouco alcança.
80.           A preguiça morreu de sede ao pé dum rio.
81.           A preguiça morreu de sede, andando a nadar.
82.           A raposa ama enganos, o lobo, cordeiros, e a mulher, elogios.
83.           À raposa dormente, não lhe amanhece galinha no ventre.
84.           À raposa dormida, não lhe cai comida na boca (nada lhe cai na barriga).
85.           A raposa faz o que o leão não consegue.
86.           A raposa faz pela semana com que ao domingo não vá à igreja.
87.           À raposa indolente, não lhe cai a comida no dente.
88.           A raposa muda de pele, mas não de manha/ de natureza/de vezo.
89.           A raposa não mata galinha onde tem os filhos.
90.           A raposa prega às galinhas.
91.           A raposa se conhece pela cauda.
92.           A raposa tanto faz na semana que no domingo vai à missa.
93.           A raposa tem sete manhas, a mulher tem a manha de sete raposas.
94.           A vaca foi para o brejo.
95.           A vaca que não come com os bois, ou comeu antes, ou comerá depois.
96.           A vaca, bem cozida e mal assada.
97.           Abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
98.           Abelha dá mel, mas não quer saber de agrado.
99.           Abelha dá o mel, mas não foi feita para beijos.
100.       Abelha preta é arapuá, tempero de negro é manguá.
101.       Abelha só dá mordidela em quem trata com ela.
102.       Abelha, ovelha, pena atrás da orelha e parte na igreja, desejava para seu filho a velha.
103.       Abelha-mestra não tem sesta, e, se a tem, pouca e depressa.
104.       Abelhas e ovelhas têm suas defesas.
105.       Águias não caçam moscas.
106.       Alazão tostado, antes morto que cansado.
107.       Alazão, ou muito bom, ou muito ladrão.
108.       Ao coelho ido, conselho vindo.
109.       Ao gato, por ladrão, não lhe dês de mão.
110.       Ao gato, por ladrão, não o tires de tua mansão.
111.       Ao porco e ao genro, mostra-lhe a casa, e virá cedo.
112.       Aonde está o galo, não canta a galinha.
113.       Aonde o galo canta, aí janta.
114.       Aos cavalos e às mulheres, é guardá-los de alugueres.
115.       Aos peixes não se ensina a nadar.
116.       Aqui é que a porca torce o rabo.
117.       Aqui há gato escondido com o rabo de fora.
118.       Ara com os bois, semeia com as vacas.
119.       Aranha matutina envenena a sina.
120.       Arrenego do cavalo que se enfreia pelo rabo.
121.       As águias não caçam moscas.
122.       As águias não dão pombos.
123.       As cadelas apressadas parem cães tortos.
124.       As galinhas põem pelo bico, e às mulheres o leite vai-lhes pela boca.
125.       As galinhas prendem-se pelo bico.
126.       As moscas apanham-se com mel.
127.       As moscas magras são as mais importunas.
128.       As moscas são sempre as mesmas.
129.       As moscas se pegam com mel.
130.       Até as rãs mordiam, se tivessem dentes.
131.       Até lá ou morre o burro ou quem o tange.
132.       Até marimbondo tem casa.
133.       Até o asno não tropeça duas vezes na mesma pedra.
134.       Até os cisnes se tisnam.
135.       Até os gatos querem fazer sapatos.
136.       Atirar na porca e acertar no leitão.
137.       Atrás do cururu peado todo bicho é corredor.
138.       Ave de bico nunca fez o dono rico.
139.       Ave de casa mais come do que vale.
140.       Ave escarmentada o laço receia.
141.       Aves da mesma pena andam juntas.
142.       Aves de rapina escolhem sempre o melhor.
143.       Aves de rapina não querem companhia.
144.       Babava como boi com aftosa
145.       Bacalhau de porta de venda.
146.       Bacalhau é comer de negro, negro é comer de onça.
147.       Bacalhau quer alho.
148.       Bafo de cão, até com pão.
149.       Bafo de gato que nem chegue ao fato.
150.       Bago a bago, enche a galinha o papo.
151.       Baleias no canal, terás temporal. 
152.       Barata sabida não atravessa galinheiro.
153.       Barbado como um leopardo.
154.       Bem sabe o gato cujas barbas lambe.
155.       Bem se lambe o gato, depois de farto.
156.       Besta de carga, cangalhas ao lombo.
157.       Besta grande, cavalo de pau.
158.       Bezerra brava não mama nada.
159.       Bezerrinha mansa em todas as vacas mama.
160.       Bezerro de pobre não chega a boi.
161.       Bezerro manso mama na mãe dele e na dos outros
162.       Bezerro manso mama todas as vacas.
163.       Bicho que mija pra trás, põe o dono pra frente.
164.       Boa é a galinha que o outro cria.
165.       Bode não morre de fome.
166.       Bode só dá chifrada em quem anda a pé.
167.       Bode também tem barba
168.       Bode, quando não salta, berra.
169.       Boi à larga a si se mata.
170.       Boi andando no pasto, pra lá e pra cá, capim que acabou ou está pra acabar...
171.       Boi aquerenciado, não cansa de sofrer.
172.       Boi atolado, pau nele.
173.       Boi brabo em pasto alheio amansa.
174.       Boi bravo, chegando na terra alheia, se faz de manso.
175.       Boi bravo, depois de morto, todo mundo segura o chifre dele.
176.       Boi bravo, na terra alheia, se faz manso.
177.       Boi cansado, passo seguro.
178.       Boi com boi é que faz junta.
179.       Boi com cincerro no pescoço, é peta pelejar pra se esconder, não é?..
180.       Boi cornudo, cavalo cascudo.
181.       Boi de guia é que bebe água limpa.
182.       Boi em terra alheia é vaca.
183.       Boi irado, n terra dos outros, é bezerra.
184.       Boi ladrão não amanhece em roça.
185.       Boi latreiro, bebe água barrenta.
186.       Boi lerdo bebe água suja
187.       Boi luzidio nunca tem fastio.
188.       Boi mais velho é sempre culpado pela horta ser mal lavrada
189.       Boi manso é que arromba a porteira.
190.       Boi manso em seu corno cresce.
191.       Boi manso novilho atropela
192.       Boi manso, aperreado, arremete
193.       Boi manso, novilho atropela
194.       Boi mau em seu corno cresce.
195.       Boi mocho não dá chifrada.
196.       Boi morto, boca de cobra.
197.       Boi morto, vaca é.
198.       Boi não berra por bezerro.
199.       Boi que come farinha, não cansa.
200.       Boi que marra, quer choupa.
201.       Boi que se atrasa bebe água suja
202.       Boi ronceiro bebe água suja.
203.       Boi sabe a cerca que fura.
204.       Boi solto se lambe todo.
205.       Boi sonso é que arromba curral (ou cerca).
206.       Boi sonso não erra marrada.
207.       Boi sonso, a marrada é certa (chifrada certa).
208.       Boi velho conhece o outro pelo berro.
209.       Boi velho ensina a lavrar o novo.
210.       Boi velho gosta de erva tenra.
211.       Boi velho lavra com os ossos.
212.       Boi velho só com os ossos toca o carro.
213.       Boi velho só morre em terra de gente besta
214.       Boi velho, passo seguro.
215.       Boi velho, rego direito.
216.       Boi viajado, gasta a quina do casco.
217.       Boi, em terra alheia, vira vaca
218.       Boi, na terra alheia, até as vacas chifram
219.       Boiada estoura, é perto do pouso.
220.       Bom cabrito não berra
221.       Bom cão de caça até a morte abana o rabo.
222.       Bom cão de caça até a morte dá ao rabo.
223.       Borboleta quando pousa na gente traz sorte.
224.       Borreguinha mansa mama a sua teta e a alheia.
225.       Burra velha de longe aventa as pegas.
226.       Burrinho que me leve e não cavalo que me arraste.
227.       Burro bravo dá coice até no vento.
228.       Burro bravo dá coice no vento.
229.       Burro calado por sábio é contado.
230.       Burro calado se torna sábio
231.       Burro calado, sábio é.
232.       Burro carregado de açúcar até a rabichola é doce.
233.       Burro com fome, cardos come.
234.       Burro de carga é que aguenta tranco
235.       Burro de muitos depressa fica esfalfado.
236.       Burro de muitos, depressa fica cansado.
237.       Burro e burriqueiro nunca pensam do mesmo modo.
238.       Burro e carroceiro nunca estão de acordo.
239.       Burro esbarrado, burro dado.
240.       Burro gosta de ouvir seus zurros.
241.       Burro mau, a passo ou a trote, corre para casa sem chicote.
242.       Burro mau, indo para casa, corre sem pau.
243.       Burro morto, cevada ao rabo.
244.       Burro não amansa, se acostuma.
245.       Burro não é gato nem cobra, para querer enxergar no escuro.
246.       Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair.
247.       Burro preto do embornal branco leva o dono até o canto.
248.       Burro que a Roma vá, burro volta de lá.
249.       Burro que dá coice em parede, em si o dá.
250.       Burro que geme, carga não teme.
251.       Burro que muito zurra, pede cabresto.
252.       Burro que vai a Santarém, burro vai e burro vem.
253.       Burro queimado-negro, casa em cima de pedra, e negro chamado Pedro, eu tenho medo...
254.       Burro só não gosta é de principiar viagens...
255.       Burro velho de longe aventa as pegas.
256.       Burro velho gosta de capim novo.
257.       Burro velho não acerta com a encruzilhada.
258.       Burro velho não amansa, acostuma.
259.       Burro velho não aprende línguas.
260.       Burro velho não aprende/não toma ensino.
261.       Burro velho não recebe ensino.
262.       Burro velho não se amansa; acostuma-se, mas não é de confiança.
263.       Burro velho não toma andadura, e se a toma, pouco dura.
264.       Burro velho não toma ensino.
265.       Burro velho não toma freio.
266.       Burro velho só morre em terra de gente besta.
267.       Burro velho, mais vale matá-lo que ensiná-lo.
268.       Burro velho, não aprende línguas.
269.       Burro, onde encosta, mija.
270.       Burro, quando está infeliz, até no lajeiro se atola.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

É PATOENSE O AUTOR DO PRIMEIRO CORDEL PUBLICADO NO BRASIL

José Ozildo dos Santos

A Literatura de Cordel está relacionada ao romanceiro popular. Originária do cancioneiro da Península Ibérica, no Nordeste brasileiro ela encontrou um ambiente sociocultural propício, rapidamente difundiu-se e tomou forma própria. E ao patoense Silvino Pirauá de Lima cabe a primazia de ter sido o autor do primeiro folheto de cordel publicado no Brasil. Autor de ‘História do Capitão do Navio’ e ‘Peleja da Alma’, nasceu na Vila de Patos, em idos de 1848. Filho de agricultores, teve uma infância pobre e distante da escola. No entanto, possuidor de uma grande vivacidade, cedo aprendeu a versejar.
Tocador de viola admirável e repentista exímio, considerado o mais notável de todos os discípulos do famoso repentista Francisco Romano, da Serra do Teixeira, de quem era grande amigo, Silvino Pirauá foi depois de seu mestre, o maior cantador do Nordeste. Venceu inúmeros cantadores e jamais foi vencido. Glosador e poeta popular, viveu a primeira fase de sua vida, cantando pelas feiras livres do sertão paraibano, tendo ainda sido o introdutor da regra da ‘deixa’, que obriga o adversário a compor rimando com o último verso deixado pelo contendor.
Poeta andarilho, Silvino Pirauá vivia exclusivamente de sua arte e rimava para arranjar o pão. Em companhia de seu discípulo Josué Romano, anualmente percorria os Estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, cantando nas feiras do interior. Em 1898, fugindo dos efeitos maléficos de uma grande estiagem, que assolava o sertão paraibano, deixou definitivamente a Vila de Patos e transferiu-se para Recife, onde fixou residência num bairro pobre e passou a exercer seu ofício, cantando nas feiras e praças da capital pernambucana. Foi nessa época, que levado por dificuldades econômicas, iniciou a publicação de seus versos, tornando-se o percussor do romanceiro popular.
Um dos mais tristes fatos da vida desse notável poeta-cantador, foi narrado por Sebastião Nunes Batista, em sua ‘Antologia da Literatura de Cordel’. Homem pobre - a exemplo da maioria dos cantadores nordestinos - falecendo sua esposa, “valeu-se da ‘cantoria’ para custear-lhe o enterro”.  
Foi na capital pernambucana, que Silvino Pirauá consagrou-se como poeta e cantador de viola. E, formando parceria com José Galdino da Silva Duda e posteriormente com o cantador pernambucano Antônio Batista Guedes (seu discípulo), percorreu as mais importantes feiras do interior nordestino, cantando e vendendo folhetos, difundindo a Literatura de Cordel.
Possuidor de uma memória prodigiosa, Silvino Pirauá tinha conhecimentos rudimentares de Geografia, História Universal e Sagrada. Cognado por seus colegas como ‘o poeta enciclopédico’, celebres são suas ‘descrições’ sobre a Paraíba e o Amazonas. Em meados de 1913, encontrava-se cantando em Bezerros, no interior de Pernambuco, quando contraiu varíola e prematuramente faleceu, aos 65 anos de idade. Escreveu e publicou inúmeros folhetos, entre os quais, os mais conhecidos são: ‘Verdadeira Peleja de Francisco Romano e Inácio da Catingueira’, ‘A Vingança do Sultão’, ‘As Três Moças que Quiseram Casar com um só Moço’, ‘História do Capitão do Navio’, ‘História de Zezinho e Mariquinha’, ‘Desafio de Zé Duda com Silvino Pirauá’, ‘Descrição da Paraíba’, ‘E Tudo Vem a Ser Nada’, ‘Descrição do Amazonas’, ‘História de Crispim e Raimundo’ e ‘Peleja da Alma’.
Os romances de Pirauá, que, ao longo dos tempos vinha sendo “reeditados e consumidos pelo homem do campo”, hoje, juntamente com a obra de Leandro Gomes de Barros e outros expoentes da Literatura de Cordel, a exemplo de Patativa do Assaré, são objetos de estudos nos meios universitários. Embora não lhe caiba a maior glória de nosso romanceiro popular, Silvino Pirauá é lembrado na história de nossa Literatura de Cordel, por seu pioneirismo. Poeta original, em sua produção, abordou os mais variados temas, dando uma grande contribuição à Literatura Popular Nordestina. Lamentavelmente, é um nome ignorado na cidade, que lhe serviu como berço.
  
Publicado na revista Patos de Todos Nós, edição de outubro de 2005

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O RIO GRANDE DO NORTE NA CRÔNICA POLICIAL DO SÉCULO XIX - V

MARIDO MATA MULHER EM BREJINHO
(06-01-1871)

José Ozildo dos Santos

De 11 de setembro de 1870 a 28 de agosto do ano seguinte, foram praticados 12 homicídios na Província do Rio Grande do Norte. No entanto, desses crimes um merece menção por sua gravidade e pelas circunstancias de que se revestiu. Na época, a pequena povoação de Brejinho era termo da Comarca de Goianinha. Seus habitantes exploravam a agricultura de subsistência e viviam de forma pacata.
O calendário registrava o dia 6 de janeiro de 1871. Era meio dia em ponto. O padre Manoel Ferreira Borges, vigário de Goianinha havia acabado de celebrar a Missa de Reis e um grande número de pessoas transitava pelas ruas da pequena povoação.
Sem um motivo conhecido, Manoel Francisco da Trindade, que acabara de ouvir a missa, “no meio de um numeroso concurso de pessoas, disparou sobre sua infeliz mulher, Joaquina Maria do Nascimento, um tiro de bacamarte, do qual lhe resultou a morte duas horas depois”.
O medo e o desespero tomaram conta da pequena povoação. O criminoso, ainda de arma em punho, logo evadiu-se do local. A vítima, recolhida por terceiros, agonizou até a morte, sem, contudo, receber qualquer assistência médica, pois ali não havia médicos, nem práticos.
O subdelegado de polícia local, Manoel Antônio Bezerra, após ciência de tão deplorável acontecimento, tomou providências enérgicas: reuniu cerca de cem homens armados e saiu no encalço do assassino, que havia se embrenhado pelas matas.
E, quando a vítima dava seu último suspiro, o enérgico representante da Lei - duas horas após o ocorrido - entrava na povoação de Brejinho conduzindo preso o marido assassino. Ainda naquela tarde, procedeu-se o exame de corpo delito e abriu-se o processo contra o delinquente, que conduzido à cadeia pública da vila de Goianinha, ali aguardou seu julgamento.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O RIO GRANDE DO NORTE NA CRÔNICA POLICIAL DO SÉCULO XIX - IV


O BÁRBARO ASSASSINATO DE UMA INOCENTE EM
JUCURUTU (31-08-1889)

José Ozildo dos Santos

A crônica policial do século XIX registra no Rio Grande do Norte um bárbaro homicídio ocorrido na antiga povoação de São Miguel do Jucurutu, parte integrante do município de Caicó, à época, ‘Cidade do Príncipe’.
No dia 3 de agosto de 1889, o senhor Manuel Tomás de Araújo, que ocupava o cargo de sacristão da Matriz de São Miguel de Jucurutu, compareceu à ‘Cidade do Príncipe’ para denunciar à imprensa, à polícia e à justiça, um fato gravís­simo ocorrido em sua localidade.
Em seu relato, Manuel Tomás informou que no dia 31 de julho daquele ano de 1889, encontrava-se na Igreja Matriz de Jucurutu, quando “apresenta­ram-lhe para dar à sepultura o cadáver de Rita, de 4 anos de idade, filha de Luiza, liberta do finado Major José Batista dos Santos. Estra­nhando ele que a própria mãe e a avó da infeliz criança se tivessem encarregado de levarem o cadaverzinho ao cemitério, quando existia um homem em sua companhia, interrogou-as, e viu imediatamente as suas lágrimas, aumentarem e entre outras frases entrecortadas pelos soluções dizerem: “Não choraríamos tanto se Rita tivesse sido  morta por Deus”.
Após ouvir semelhantes palavras o denunciante não consentiu que o corpo da menina Rita fosse sepultado, sem antes se proceder um exame de corpo delito. Assim, por falta de autoridade policial na localidade, convidou entre outras pessoas qualificadas no lugar, o capitão Francisco Brito, o tenente José Batista da Natividade, além dos senhores José Tomas e Honorato de Araújo, “para examinarem minuciosamente o cadáver, no qual encontraram sinais evidentes de arranhaduras de unhas no pescoço, manchas no corpo e o pescoço visivelmente deslocado”.
Sem muito esforço, logo chegou-se ao autor de tão horroroso fato. Tratava-se de um indivíduo conhecido por Manuel Cutuca, que odiava a criança e após matá-la, não consentiu que seu cadáver fosse amortalhado por estranhos. Quando o fato chegou ao conhecimento público, o assassino no mesmo dia evadiu-se.
Após informada, a autoridade policial do município de Caicó determinou a exumação do cadáver da infeliz criança e constatou que a mesma teve sua cabeça separada do tronco. Lamentavelmente, apesar das buscas promovidas pela força policial, o criminoso não foi capturado.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


A CRIAÇÃO DA DIOCESE DE PATOS

José Ozildo dos Santos
  
Como sede paroquial, a cidade de Patos esteve subordinada à Diocese de Olinda-PE até 1894, quando foi criada a Diocese da Paraíba, passando, posteriormente, a pertencer à Diocese de Cajazeiras, após a criação daquele sólio episcopal, aos 6 de fevereiro de 1914.
No final da primeira metade do século passado, a cidade de Patos, por sua importância econômica, tornou-se o centro mais desenvolvido do sertão paraibano, não somente comercial, mas também industrial. Para aqui, além das grandes empresas beneficiadoras do algodão - o ouro branco dos sertões - afluíram vários órgãos governamentais. Esse grande crescimento econômico e populacional impôs uma nova necessidade: a criação de uma Diocese.


Cerimônia de instalação da Diocese de Patos 

Em princípios de 1958, estabeleceram-se os primeiros contatos informais com o Núncio Apostólico dom Armando Lombardi. A seu conselho, foram iniciados os preparativos remotos com a organização da futura Catedral de Nossa Senhora da Guia.
A coordenação do movimento pró-criação da referida Diocese, ficou a cargo do padre Manoel Vieira, à época, diretor do Colégio Diocesano, que, publicamente, assumiu o compromisso sagrado de trabalhar pela futura sede episcopal. É importante também registrar que Dom Zacarias Rolim, ex-vigário de Patos e à época, bispo de Cajazeiras, desenvolveu significativos esforços, visando tornar o sonho dos patoenses uma realidade.
Esse sonho coletivo tornou-se realidade aos 27 de janeiro de 1959, quando o Santo Papa João XXIII, assinou a Bula ‘Quandoquidem Deus’, transformando a ‘Capital das Espinharas’ na sede da segunda Diocese do sertão paraibano. Considerada como a certidão de batismo da Diocese patoense, a referida Bula, em parte, expressa:

“João, Bispo, Servo dos Servos de Deus, para imperecível memória. Visto que Deus, sendo sapientíssimo, quis que os homens redimidos pelos dolorosos tormentos de seu filho Jesus Cristo fossem reduzidos à salvação e eterna pelos maternais desvelos da Santa Igreja, também nós, que pela autoridade divina governamos o leme da sociedade cristã, com empenho nos dedicamos e insistimos a fim de que aos fiéis de Cristo haja condições propícias para fomentar a piedade e colher os frutos da Redenção. Por este motivo, tendo o memorável irmão Armando Lombardi, Arcebispo de Cesarea de Felipe e Núncio Apostólico na República Federativa do Brasil, após ouvir o parecer dos veneráveis irmãos Zacarias Rolim de Moura, Bispo de Cajazeiras e Otávio Aguiar, Bispo de Campina Grande, pedido a esta Sé Apostólica que na região destas circunscrições eclesiásticas se fundasse uma nova Diocese, nós após diligente consideração da idéia, tendo ouvido nossos veneráveis irmãos Cardeais da Santa Igreja Romana, Dirigentes da Sagrada Congregação Consistorial, suprindo o consenso daqueles que neste assunto se julgam ter algum direito com nossa autoridade suprema, resolvemos e determinamos quanto se segue: Separamos da Diocese de Cajazeiras os municípios chamados Patos, Malta, Princesa Isabel, Santa Luzia e São Mamede e as Cúrias ou paróquias  de Santo Antônio e Santa Ana, do município de Piancó, igualmente separados da Diocese de Campina Grande os territórios chamados Taperoá e Teixeira e o território do distrito que denomina Junco do Seridó, pertencente ao município de Santa Luzia. A toda esta região constituímos uma nova diocese que se deve chamar Patoense e deve confinar-se pelos mesmos limites que os municípios e paróquias de que se compõem conforme se delimitam atualmente por lei civil. A sede da nova diocese será a cidade de Patos, onde o Bispo estabelecerá seu domínio, edificará a Catedral de sua autoridade e ensinamentos no templo que na expressão popular chama-se de Nossa Senhora da Guia, o qual, com justa honra, se elevará à Catedral. Concedemos os devidos direitos à Igreja constituída, bem como ao seu Antístite, a que impomos, pois, os encargos do ofício episcopal. Entre estes, porém, convém lembrar: estar, ele, bem como sua Igreja, subordinados ao Metropolita da Paraíba de quem é sufragâneo. Ordenamos ainda que em a nova circunscrição se constitua Cabido que concorra para o esplendor das cerimônias e sirva de ajuda ao Pastor; enquanto, porém, não possa este, constituir-se, permitimos que em seu lugar sejam nomeados Consultores Diocesano, cujo ofício se encerrará com a instalação do Cabido. Mandamos igualmente, e ao Bispo impomos grave obrigação, que se funde um Seminário ao menos elementar para meninos escolhidos, que por vocação divina sejam chamados ao Sacerdócio: tão, na verdade, a esperança de toda a Igreja. Seja o mesmo feito segundo a norma de direito comum e as regras emanadas da Sagrada Congregação dos Seminários e Estudos Universitários. Constituirão a mesa episcopal as ofertas dos fiéis, os emolumentos da Cúria e a conveniente parte dos bens que consoante o Cânon 1500 do Código de Direito Canônico couber á nova Diocese. Determinamos ainda que quando se instalar a Diocese os sacerdotes que tiverem benefício ou oficio no seu território sejam computados como seu próprio clero; os demais, porém adstritos à sede onde legitimamente vivem. Quanto ao governo, no que se refere à administração, bem como à eleição do Vigário Capitular, quando a sede vagar ou algo semelhante, observe-se o que estabelece o Direito Canônico. Por fim, os documentos e atos que dizem respeito à Diocese de Patos sejam quantos antes enviados à sua Cúria episcopal e cuidadosamente se conservem no arquivo das coisas religiosas. Por último executará tudo isso o venerável irmão Armando Lombardi, de quem fizemos menção, o qual poderá delegar qualquer varão, dadas para tanto às necessárias faculdades; aquele, porém, que executar o mandato ordenará que se lavrem atas e documentos dos quais um exemplar fielmente copiado mandará que seja enviado à Sagrada Congregação Consistorial. Mas se por esse tempo outro estiver à frente da Nunciatura no Brasil, este cumprirá o Nosso mandato. Queremos que no presente e no futuro esta nossa Bula de tal modo tenha vigor que tudo quanto por ela tenha sido determinado religiosamente seja observado por que de direito, e obtenha deste modo sua força; à eficácia deste documento não se poderá opor nenhuma disposição em contrário de qualquer gênero, visto que por ele revogamo-las todas. Por isto, se alguém seja qual for sua autoridade, sabendo ou sem conhecimento, agir de modo contrário ao que determinamos, mandamos que seja tido por totalmente nulo sem qualquer valor quanto este determinar. A ninguém, portanto, seja lícito rasgar e deteriorar este documento de Nossa vontade; ao contrário, a mesma fé que teria esta carta se fosse apresentada, devem ter suas cópias e trechos, sejam em tipos de imprensa, sejam exaradas à mão, as quais tragam sele de algum varão constituído em dignidade eclesiástica e sejam subscritas por algum tabelião público. Se alguém menosprezar ou de algum modo desdenhar todo este nosso Decreto, saiba que estará sujeito às penas estabelecidas no Direito àqueles que não obedecem às determinações deste Soberano Pontífice. Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 27 do mês de janeiro do ano do Senhor – 1959, primeiro do nosso Pontificado. Pela Santa Igreja Romana o Chanceler Mimmi, Bispo de Sabino e Mandela, o Secretário Hamleto Tardini, Diretor da Chancelaria Apostólica, Alberto Serafini, Protonatário Apostólico, Caesar Frederici, Protonatário Apostólico. Expedida no dia 11 de março, ano primeiro do Pontificado. D. Rodomon Galligani, pelo Chumbador. No Arquivo da Chancelaria Apostólica, Vol. XCIX, n. 94”.

Pelo demonstrado, o território da Diocese de Patos, foi desmembrado das Dioceses de Campina Grande e Cajazeiras e não tão somente desta última, com vem sendo divulgado pela imprensa patoense e por alguns pesquisadores que abordam o assunto.
A notícia da criação da Diocese de Patos, foi divulgada pelo Padre Francisco Paulo Licarião, recém-nomeado vigário da Matriz de Nossa Senhora da Guia - durante uma celebração dominical.
Cedo, iniciou-se os preparativos para a instalação da nova Diocese. A comunidade católica patoense, deu significativa contribuição, provendo a Matriz de Nossa Senhora da Guia das alfaias e utensílios necessários.

Continua...

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