Hoje é

domingo, 24 de fevereiro de 2013

É PATOENSE O AUTOR DO PRIMEIRO CORDEL PUBLICADO NO BRASIL

José Ozildo dos Santos

A Literatura de Cordel está relacionada ao romanceiro popular. Originária do cancioneiro da Península Ibérica, no Nordeste brasileiro ela encontrou um ambiente sociocultural propício, rapidamente difundiu-se e tomou forma própria. E ao patoense Silvino Pirauá de Lima cabe a primazia de ter sido o autor do primeiro folheto de cordel publicado no Brasil. Autor de ‘História do Capitão do Navio’ e ‘Peleja da Alma’, nasceu na Vila de Patos, em idos de 1848. Filho de agricultores, teve uma infância pobre e distante da escola. No entanto, possuidor de uma grande vivacidade, cedo aprendeu a versejar.
Tocador de viola admirável e repentista exímio, considerado o mais notável de todos os discípulos do famoso repentista Francisco Romano, da Serra do Teixeira, de quem era grande amigo, Silvino Pirauá foi depois de seu mestre, o maior cantador do Nordeste. Venceu inúmeros cantadores e jamais foi vencido. Glosador e poeta popular, viveu a primeira fase de sua vida, cantando pelas feiras livres do sertão paraibano, tendo ainda sido o introdutor da regra da ‘deixa’, que obriga o adversário a compor rimando com o último verso deixado pelo contendor.
Poeta andarilho, Silvino Pirauá vivia exclusivamente de sua arte e rimava para arranjar o pão. Em companhia de seu discípulo Josué Romano, anualmente percorria os Estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, cantando nas feiras do interior. Em 1898, fugindo dos efeitos maléficos de uma grande estiagem, que assolava o sertão paraibano, deixou definitivamente a Vila de Patos e transferiu-se para Recife, onde fixou residência num bairro pobre e passou a exercer seu ofício, cantando nas feiras e praças da capital pernambucana. Foi nessa época, que levado por dificuldades econômicas, iniciou a publicação de seus versos, tornando-se o percussor do romanceiro popular.
Um dos mais tristes fatos da vida desse notável poeta-cantador, foi narrado por Sebastião Nunes Batista, em sua ‘Antologia da Literatura de Cordel’. Homem pobre - a exemplo da maioria dos cantadores nordestinos - falecendo sua esposa, “valeu-se da ‘cantoria’ para custear-lhe o enterro”.  
Foi na capital pernambucana, que Silvino Pirauá consagrou-se como poeta e cantador de viola. E, formando parceria com José Galdino da Silva Duda e posteriormente com o cantador pernambucano Antônio Batista Guedes (seu discípulo), percorreu as mais importantes feiras do interior nordestino, cantando e vendendo folhetos, difundindo a Literatura de Cordel.
Possuidor de uma memória prodigiosa, Silvino Pirauá tinha conhecimentos rudimentares de Geografia, História Universal e Sagrada. Cognado por seus colegas como ‘o poeta enciclopédico’, celebres são suas ‘descrições’ sobre a Paraíba e o Amazonas. Em meados de 1913, encontrava-se cantando em Bezerros, no interior de Pernambuco, quando contraiu varíola e prematuramente faleceu, aos 65 anos de idade. Escreveu e publicou inúmeros folhetos, entre os quais, os mais conhecidos são: ‘Verdadeira Peleja de Francisco Romano e Inácio da Catingueira’, ‘A Vingança do Sultão’, ‘As Três Moças que Quiseram Casar com um só Moço’, ‘História do Capitão do Navio’, ‘História de Zezinho e Mariquinha’, ‘Desafio de Zé Duda com Silvino Pirauá’, ‘Descrição da Paraíba’, ‘E Tudo Vem a Ser Nada’, ‘Descrição do Amazonas’, ‘História de Crispim e Raimundo’ e ‘Peleja da Alma’.
Os romances de Pirauá, que, ao longo dos tempos vinha sendo “reeditados e consumidos pelo homem do campo”, hoje, juntamente com a obra de Leandro Gomes de Barros e outros expoentes da Literatura de Cordel, a exemplo de Patativa do Assaré, são objetos de estudos nos meios universitários. Embora não lhe caiba a maior glória de nosso romanceiro popular, Silvino Pirauá é lembrado na história de nossa Literatura de Cordel, por seu pioneirismo. Poeta original, em sua produção, abordou os mais variados temas, dando uma grande contribuição à Literatura Popular Nordestina. Lamentavelmente, é um nome ignorado na cidade, que lhe serviu como berço.
  
Publicado na revista Patos de Todos Nós, edição de outubro de 2005

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O RIO GRANDE DO NORTE NA CRÔNICA POLICIAL DO SÉCULO XIX - V

MARIDO MATA MULHER EM BREJINHO
(06-01-1871)

José Ozildo dos Santos

De 11 de setembro de 1870 a 28 de agosto do ano seguinte, foram praticados 12 homicídios na Província do Rio Grande do Norte. No entanto, desses crimes um merece menção por sua gravidade e pelas circunstancias de que se revestiu. Na época, a pequena povoação de Brejinho era termo da Comarca de Goianinha. Seus habitantes exploravam a agricultura de subsistência e viviam de forma pacata.
O calendário registrava o dia 6 de janeiro de 1871. Era meio dia em ponto. O padre Manoel Ferreira Borges, vigário de Goianinha havia acabado de celebrar a Missa de Reis e um grande número de pessoas transitava pelas ruas da pequena povoação.
Sem um motivo conhecido, Manoel Francisco da Trindade, que acabara de ouvir a missa, “no meio de um numeroso concurso de pessoas, disparou sobre sua infeliz mulher, Joaquina Maria do Nascimento, um tiro de bacamarte, do qual lhe resultou a morte duas horas depois”.
O medo e o desespero tomaram conta da pequena povoação. O criminoso, ainda de arma em punho, logo evadiu-se do local. A vítima, recolhida por terceiros, agonizou até a morte, sem, contudo, receber qualquer assistência médica, pois ali não havia médicos, nem práticos.
O subdelegado de polícia local, Manoel Antônio Bezerra, após ciência de tão deplorável acontecimento, tomou providências enérgicas: reuniu cerca de cem homens armados e saiu no encalço do assassino, que havia se embrenhado pelas matas.
E, quando a vítima dava seu último suspiro, o enérgico representante da Lei - duas horas após o ocorrido - entrava na povoação de Brejinho conduzindo preso o marido assassino. Ainda naquela tarde, procedeu-se o exame de corpo delito e abriu-se o processo contra o delinquente, que conduzido à cadeia pública da vila de Goianinha, ali aguardou seu julgamento.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O RIO GRANDE DO NORTE NA CRÔNICA POLICIAL DO SÉCULO XIX - IV


O BÁRBARO ASSASSINATO DE UMA INOCENTE EM
JUCURUTU (31-08-1889)

José Ozildo dos Santos

A crônica policial do século XIX registra no Rio Grande do Norte um bárbaro homicídio ocorrido na antiga povoação de São Miguel do Jucurutu, parte integrante do município de Caicó, à época, ‘Cidade do Príncipe’.
No dia 3 de agosto de 1889, o senhor Manuel Tomás de Araújo, que ocupava o cargo de sacristão da Matriz de São Miguel de Jucurutu, compareceu à ‘Cidade do Príncipe’ para denunciar à imprensa, à polícia e à justiça, um fato gravís­simo ocorrido em sua localidade.
Em seu relato, Manuel Tomás informou que no dia 31 de julho daquele ano de 1889, encontrava-se na Igreja Matriz de Jucurutu, quando “apresenta­ram-lhe para dar à sepultura o cadáver de Rita, de 4 anos de idade, filha de Luiza, liberta do finado Major José Batista dos Santos. Estra­nhando ele que a própria mãe e a avó da infeliz criança se tivessem encarregado de levarem o cadaverzinho ao cemitério, quando existia um homem em sua companhia, interrogou-as, e viu imediatamente as suas lágrimas, aumentarem e entre outras frases entrecortadas pelos soluções dizerem: “Não choraríamos tanto se Rita tivesse sido  morta por Deus”.
Após ouvir semelhantes palavras o denunciante não consentiu que o corpo da menina Rita fosse sepultado, sem antes se proceder um exame de corpo delito. Assim, por falta de autoridade policial na localidade, convidou entre outras pessoas qualificadas no lugar, o capitão Francisco Brito, o tenente José Batista da Natividade, além dos senhores José Tomas e Honorato de Araújo, “para examinarem minuciosamente o cadáver, no qual encontraram sinais evidentes de arranhaduras de unhas no pescoço, manchas no corpo e o pescoço visivelmente deslocado”.
Sem muito esforço, logo chegou-se ao autor de tão horroroso fato. Tratava-se de um indivíduo conhecido por Manuel Cutuca, que odiava a criança e após matá-la, não consentiu que seu cadáver fosse amortalhado por estranhos. Quando o fato chegou ao conhecimento público, o assassino no mesmo dia evadiu-se.
Após informada, a autoridade policial do município de Caicó determinou a exumação do cadáver da infeliz criança e constatou que a mesma teve sua cabeça separada do tronco. Lamentavelmente, apesar das buscas promovidas pela força policial, o criminoso não foi capturado.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


A CRIAÇÃO DA DIOCESE DE PATOS

José Ozildo dos Santos
  
Como sede paroquial, a cidade de Patos esteve subordinada à Diocese de Olinda-PE até 1894, quando foi criada a Diocese da Paraíba, passando, posteriormente, a pertencer à Diocese de Cajazeiras, após a criação daquele sólio episcopal, aos 6 de fevereiro de 1914.
No final da primeira metade do século passado, a cidade de Patos, por sua importância econômica, tornou-se o centro mais desenvolvido do sertão paraibano, não somente comercial, mas também industrial. Para aqui, além das grandes empresas beneficiadoras do algodão - o ouro branco dos sertões - afluíram vários órgãos governamentais. Esse grande crescimento econômico e populacional impôs uma nova necessidade: a criação de uma Diocese.


Cerimônia de instalação da Diocese de Patos 

Em princípios de 1958, estabeleceram-se os primeiros contatos informais com o Núncio Apostólico dom Armando Lombardi. A seu conselho, foram iniciados os preparativos remotos com a organização da futura Catedral de Nossa Senhora da Guia.
A coordenação do movimento pró-criação da referida Diocese, ficou a cargo do padre Manoel Vieira, à época, diretor do Colégio Diocesano, que, publicamente, assumiu o compromisso sagrado de trabalhar pela futura sede episcopal. É importante também registrar que Dom Zacarias Rolim, ex-vigário de Patos e à época, bispo de Cajazeiras, desenvolveu significativos esforços, visando tornar o sonho dos patoenses uma realidade.
Esse sonho coletivo tornou-se realidade aos 27 de janeiro de 1959, quando o Santo Papa João XXIII, assinou a Bula ‘Quandoquidem Deus’, transformando a ‘Capital das Espinharas’ na sede da segunda Diocese do sertão paraibano. Considerada como a certidão de batismo da Diocese patoense, a referida Bula, em parte, expressa:

“João, Bispo, Servo dos Servos de Deus, para imperecível memória. Visto que Deus, sendo sapientíssimo, quis que os homens redimidos pelos dolorosos tormentos de seu filho Jesus Cristo fossem reduzidos à salvação e eterna pelos maternais desvelos da Santa Igreja, também nós, que pela autoridade divina governamos o leme da sociedade cristã, com empenho nos dedicamos e insistimos a fim de que aos fiéis de Cristo haja condições propícias para fomentar a piedade e colher os frutos da Redenção. Por este motivo, tendo o memorável irmão Armando Lombardi, Arcebispo de Cesarea de Felipe e Núncio Apostólico na República Federativa do Brasil, após ouvir o parecer dos veneráveis irmãos Zacarias Rolim de Moura, Bispo de Cajazeiras e Otávio Aguiar, Bispo de Campina Grande, pedido a esta Sé Apostólica que na região destas circunscrições eclesiásticas se fundasse uma nova Diocese, nós após diligente consideração da idéia, tendo ouvido nossos veneráveis irmãos Cardeais da Santa Igreja Romana, Dirigentes da Sagrada Congregação Consistorial, suprindo o consenso daqueles que neste assunto se julgam ter algum direito com nossa autoridade suprema, resolvemos e determinamos quanto se segue: Separamos da Diocese de Cajazeiras os municípios chamados Patos, Malta, Princesa Isabel, Santa Luzia e São Mamede e as Cúrias ou paróquias  de Santo Antônio e Santa Ana, do município de Piancó, igualmente separados da Diocese de Campina Grande os territórios chamados Taperoá e Teixeira e o território do distrito que denomina Junco do Seridó, pertencente ao município de Santa Luzia. A toda esta região constituímos uma nova diocese que se deve chamar Patoense e deve confinar-se pelos mesmos limites que os municípios e paróquias de que se compõem conforme se delimitam atualmente por lei civil. A sede da nova diocese será a cidade de Patos, onde o Bispo estabelecerá seu domínio, edificará a Catedral de sua autoridade e ensinamentos no templo que na expressão popular chama-se de Nossa Senhora da Guia, o qual, com justa honra, se elevará à Catedral. Concedemos os devidos direitos à Igreja constituída, bem como ao seu Antístite, a que impomos, pois, os encargos do ofício episcopal. Entre estes, porém, convém lembrar: estar, ele, bem como sua Igreja, subordinados ao Metropolita da Paraíba de quem é sufragâneo. Ordenamos ainda que em a nova circunscrição se constitua Cabido que concorra para o esplendor das cerimônias e sirva de ajuda ao Pastor; enquanto, porém, não possa este, constituir-se, permitimos que em seu lugar sejam nomeados Consultores Diocesano, cujo ofício se encerrará com a instalação do Cabido. Mandamos igualmente, e ao Bispo impomos grave obrigação, que se funde um Seminário ao menos elementar para meninos escolhidos, que por vocação divina sejam chamados ao Sacerdócio: tão, na verdade, a esperança de toda a Igreja. Seja o mesmo feito segundo a norma de direito comum e as regras emanadas da Sagrada Congregação dos Seminários e Estudos Universitários. Constituirão a mesa episcopal as ofertas dos fiéis, os emolumentos da Cúria e a conveniente parte dos bens que consoante o Cânon 1500 do Código de Direito Canônico couber á nova Diocese. Determinamos ainda que quando se instalar a Diocese os sacerdotes que tiverem benefício ou oficio no seu território sejam computados como seu próprio clero; os demais, porém adstritos à sede onde legitimamente vivem. Quanto ao governo, no que se refere à administração, bem como à eleição do Vigário Capitular, quando a sede vagar ou algo semelhante, observe-se o que estabelece o Direito Canônico. Por fim, os documentos e atos que dizem respeito à Diocese de Patos sejam quantos antes enviados à sua Cúria episcopal e cuidadosamente se conservem no arquivo das coisas religiosas. Por último executará tudo isso o venerável irmão Armando Lombardi, de quem fizemos menção, o qual poderá delegar qualquer varão, dadas para tanto às necessárias faculdades; aquele, porém, que executar o mandato ordenará que se lavrem atas e documentos dos quais um exemplar fielmente copiado mandará que seja enviado à Sagrada Congregação Consistorial. Mas se por esse tempo outro estiver à frente da Nunciatura no Brasil, este cumprirá o Nosso mandato. Queremos que no presente e no futuro esta nossa Bula de tal modo tenha vigor que tudo quanto por ela tenha sido determinado religiosamente seja observado por que de direito, e obtenha deste modo sua força; à eficácia deste documento não se poderá opor nenhuma disposição em contrário de qualquer gênero, visto que por ele revogamo-las todas. Por isto, se alguém seja qual for sua autoridade, sabendo ou sem conhecimento, agir de modo contrário ao que determinamos, mandamos que seja tido por totalmente nulo sem qualquer valor quanto este determinar. A ninguém, portanto, seja lícito rasgar e deteriorar este documento de Nossa vontade; ao contrário, a mesma fé que teria esta carta se fosse apresentada, devem ter suas cópias e trechos, sejam em tipos de imprensa, sejam exaradas à mão, as quais tragam sele de algum varão constituído em dignidade eclesiástica e sejam subscritas por algum tabelião público. Se alguém menosprezar ou de algum modo desdenhar todo este nosso Decreto, saiba que estará sujeito às penas estabelecidas no Direito àqueles que não obedecem às determinações deste Soberano Pontífice. Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 27 do mês de janeiro do ano do Senhor – 1959, primeiro do nosso Pontificado. Pela Santa Igreja Romana o Chanceler Mimmi, Bispo de Sabino e Mandela, o Secretário Hamleto Tardini, Diretor da Chancelaria Apostólica, Alberto Serafini, Protonatário Apostólico, Caesar Frederici, Protonatário Apostólico. Expedida no dia 11 de março, ano primeiro do Pontificado. D. Rodomon Galligani, pelo Chumbador. No Arquivo da Chancelaria Apostólica, Vol. XCIX, n. 94”.

Pelo demonstrado, o território da Diocese de Patos, foi desmembrado das Dioceses de Campina Grande e Cajazeiras e não tão somente desta última, com vem sendo divulgado pela imprensa patoense e por alguns pesquisadores que abordam o assunto.
A notícia da criação da Diocese de Patos, foi divulgada pelo Padre Francisco Paulo Licarião, recém-nomeado vigário da Matriz de Nossa Senhora da Guia - durante uma celebração dominical.
Cedo, iniciou-se os preparativos para a instalação da nova Diocese. A comunidade católica patoense, deu significativa contribuição, provendo a Matriz de Nossa Senhora da Guia das alfaias e utensílios necessários.

Continua...

sábado, 8 de dezembro de 2012

CRISTIANO LAURITZEN: Uma grande vida

José Ozildo dos Santos

N
ascido a 11 de novembro de 1847, na Jutlândia, península da Dinamarca, Cristiano Lauritzen aos 21 anos de idade emigrou para o Brasil e após percorrer a região Nordeste, fixou-se em Campina Grande, onde estabeleceu-se inicialmente como vendedor de joias, em idos de 1880. Naturalizando-se brasileiro, casou-se a 26 de julho de 1883 com Elvira Cavalcanti, filho do Coronel Alexandrino Cavalcanti, rico fazendeiro e comerciante, que durante anos presidiu a Câmara Municipal de Campina Grande. Assim, ligado-se a uma das famílias mais influentes na política campinense, passou “a interessar-se pelos problemas da comuna, vindo a concorrer apaixonadamente para o desenvolvimento da terra a que se ligara”.
Cristiano Lauritzen  

Ingressando na política, recebeu das mãos do Dr. Antônio da Trindade Antunes Meira Henriques, Juiz de Direito e ex-deputado provincial, a chefia do Partido Conservador no município de Campina Grande, em virtude daquele magistrado ter sido removido para a Comarca de Pitimbú. E, com o advento da República, foi nomeado membro e Presidente do Conselho de Intendência, pelo Dr. Venâncio Neiva, primeiro dirigente do Estado da Paraíba.
Permaneceu no referido cargo por pouco mais de um ano. Mas, foi o tempo suficiente para deixar sua marca como administrador. Em Campina Grande, Cristiano Lauritzen realizou “serviços que ainda perduram como a construção do prédio do atual Ginásio ‘Alfredo Dantas’ e a compra do relógio da Matriz, hoje Catedral”.
Em 1891, elegeu-se deputado à Assembleia Estadual Constituinte. No entanto, teve seu mandato parlamentar interrompido com a dissolução da Assembleia, a 13 de janeiro de 1892, por ato da Junta Governativa, instalada no governo logo após a queda de Deodoro da Fonseca e a consequente deposição do primeiro Presidente do Estado da Paraíba. Em 1895, no ostracismo, Cristiano Lauritzen viu-se envolvido no episódio que ficou conhecido na história campinense com o ‘Rasga Vale’, fruto de armação de seus adversários e que abalou toda a cidade. Preso, foi posto em liberdade por ordem de um ‘habeas corpus’.
Fiel aos seus princípios éticos e políticos, após consultar Epitácio Pessoa e Venâncio Neiva, de quem era amigo e correligionário, aceitou o convite formulado pelo senador Álvaro Machado para integrar o Partido Republicano. Assim, foi reconduzido à chefia política do município de Campina Grande, em 1904 e somente foi dela afastado com sua morte, ocorrida em 1923, após mais de três décadas de militância política.
Em 1912, conseguiu eleger seu filho Ernani Lauritzen para a Assembleia Legislativa, que reeleito em sucessivas legislaturas, permaneceu no Parlamento Estadual até 1924, quando renunciou seu mandato para substituí-lo no comando político campinense. Amigo íntimo do senador Epitácio Pessoa, esteve ao lado daquele ilustre paraibano, quando da realização do tumultuado pleito de 1915, que marcou a ascensão do epitacismo e do qual saiu fortalecido na chefia política do município de Campina Grande.

Cristiano Lauritzen e família - 1913 

Graças ao seu prestígio político, Cristiano Lauritzen conseguiu a revisão do contrato de arrendamento entre a Prefeitura de Campina Grande e a Great Western, possibilitando a conclusão dos trabalhos da via férrea de Itabaiana à cidade ‘Rainha da Borborema’, cujo trecho foi inaugurado a 2 de outubro de 1907. Sua atuação como chefe político e prefeito, fez-se presente em todo o município. Assim, na esperança de sanar os problemas enfrentados pela cidade com a falta d’água, conseguiu junto a IFOCS, a construção do Açude de Bodocongó. Em Campina Grande, fundou o ‘Correio de Campina’, periódico noticioso e independente, que circulou de 1911 a 1915 e que teve como colaboradores, figuras como Generino Maciel, João Suassuna, Lino Fernandes, Severino Pimentel, Hortêsio Ribeiro, Elpídio de Almeida e Otávio Amorim, entre outros.
Nome dos mais ilustres da história campinense, Cristiano Lauritzen faleceu a 18 de novembro de 1923, em Campina Grande, cidade que adotou como sua, a qual dedicou mais da metade de sua vida na busca de soluções dos mais variados problemas. Hoje, seu nome encontra-se imortalizando naquela comuna, designado uma via pública e um importante centro comercial.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

ADALBERTO JORGE RODRIGUES RIBEIRO


José Ozildo dos Santos

Nasceu a 23 de abril de 1885, na capital pernambucana. Foram seus pais Antônio da Cruz Ribeiro e Josefina Elvira Rodrigues Ribeiro. Em sua cidade natal, cursou o secundário no antigo Colégio Salesiano.

Adalberto Jorge Rodrigues Ribeiro

Posteriormente, ingressando na tradicional Faculdade de Direito local, diplomou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, no ano de 1907, tendo, entre outros, como colegas de turma concluinte, os paraibanos Antônio Bernandino Santos Neto, Augusto Ferreira Baltar Filho, Arquimedes da Cunha Souto Maior, Orris Gomes Soares e Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, o imortal poeta do ’Eu’.
No Pernambuco, iniciou sua vida profissional. Funcionário público, pertenceu aos quadros da Delegacia Fiscal, onde ocupou o cargo de escriturário. Anos mais tarde, transferiu-se para Cruz do Espírito Santo, no Estado da Paraíba.
Ali, além do exercício de suas funções, exerceu a advocacia e ingressando na política, elegeu-se membro da Câmara Municipal local. Em 1934, iniciado o processo de reconstitucionalização do país, filiou-se ao Partido Progressista da Paraíba, fundado e dirigido no Estado por José Américo de Almeida, elegendo-se deputado estadual à legislatura de 1935-1938, oficialmente instalada a 22 de janeiro de 1935, formada, em sua totalidade, por “homens conhecidos e de valor, uns pela inteligência ou pela cultura, outros pelo prestigio popular ou pela dedicação, em sua esfera, aos interesses do Estado, não raros por esses variados títulos reunidos”.  
Jornalista de reconhecidos méritos, durante muito tempo militou na imprensa paraibana, tendo colaborado no ‘Correio da Paraíba’ e n‘O Norte’. Na Paraíba, o Dr. Adalberto Ribeiro ocupou ainda o cargo de Inspetor Estadual de Ensino. Em 1945, após a redemocratização do Brasil, filiou-se às hostes da UDN - União Democrática Nacional, de cuja legenda, fui um dos fundadores na Paraíba, elegendo-se Senador à Assembléia Nacional Constituinte.
No Senado, foi primeiro Secretário da Mesa Diretora. Mas, por divergências internas em seu partido, na Paraíba, renunciou ao seu mandato senatorial (23-04-1951), sendo substituído por seu suplente, o Dr. Epitácio Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Casado em segundas núpcias com a senhora Maria Dolores Rocha, Adalberto Jorge Rodrigues Ribeiro faleceu a 23 de março de 1975, no Rio de Janeiro, um mês antes de completar 90 anos de idade.

sábado, 10 de novembro de 2012

ANTÔNIO ALFREDO DA GAMA E MELO


José Ozildo dos Santos

Político, jornalista, poliglota e orador de grandes dotes, Antônio Alfredo da Gama e Melo nasceu a 1º de outubro de 1849, na capital paraibana, onde cursou as primeiras letras, ingressando posteriormente no tradicional Lyceu Parahybano. Foram seus pais o renomado advogado Severino Antônio da Gama e Melo e dona Alexandrina Josefina D’Avila Lins.
Concluindo o curso de preparatório, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife (1869), bacharelando-se em Ciências Jurídicas e Sociais, na turma de 1873. Ainda acadêmico, disputou em concurso de provas e títulos, as cadeiras de Latim e Retórica, do Liceu Paraibano. Aprovado para ambas, foi nomeado para ocupar a primeira cátedra.

Antônio Alfredo da Gama e Melo

Diplomado, logo após assumir suas funções como professor no Liceu, instalou-se com banca de advogado na capital paraibana (1874). Cedo, distinguiu-se como professor e advogado, demonstrando que “herdara do pai - a quem sucedera na cátedra - os pendores de cultor da língua de Cícero e as inclinações para o estudo da ciência de Ulpiano”.
Em 1875, ingressando na política, elegeu-se Conselheiro Municipal, iniciando assim, sua carreira política, à qual “haveria de dedicar toda a sua vida”.
Por esse tempo, passou a militar na imprensa provinciana, escrevendo para as páginas d’O Publicador’. Filiado ao Partido Liberal, chefiado na Província pelo ilustre Comendador Felizardo Toscano de Brito, “pouco a pouco, se projetou na agremiação, utilizando-se da imprensa para defender suas ideias do liberalismo monárquico”.
No ‘Liberal Parahybano’, órgão do seu partido, terçou a arma da palavra escrita, despertando atenções e aplausos. Com inteligência, fez do jornalismo “seu instrumento de lutas pelas reivindicações oposicionistas; por meio dele começou a sua ascensão política, triunfando no primeiro prélio que se dispõe a enfrentar”, conquistando o eleitorado da capital, com suas ideias elevadas e nobres, expostas através da imprensa.
Com a ascensão dos liberais, Gama e Melo elegeu-se deputado provincial, para a legislatura de 1878-1879. Na Assembleia Legislativa, teve uma atuação destacada no plenário e nas comissões parlamentares, revelando-se um profundo conhecedor dos problemas da Província, além de “confirmar a solidez de seus conhecimentos jurídicos gerais”.
Nomeado 1º Vice-Presidente da Província, por Carta Imperial de 19 de abril de 1880, assumiu interinamente o governo da Paraíba, nos seguintes períodos: de 15-05 a 1º-06-1880; de 3-09 a 20-10-1880; de 4-03 a 21-05-1882; de 1º a 5-11-1882 e de 17-04 a 7-08-1883, oportunidades em que tratou com zelo os problemas relacionados à instrução pública.
Estas interinidades serviram para revelar o administrador probo que era, sempre primando pela absoluta moralidade administrativa. Com 1º Vice-Presidente da Província, permaneceu até 1885. Ao deixar o referido cargo, foi condecorado pelo Imperador com a medalha de Oficial da Imperial Ordem da Rosa, por seus relevantes serviços prestados à Instrução Pública e à Província.
De 1885 a 1888, dedicou-se à advocacia e à sua cátedra no Liceu Paraibano. Em 1889, com a volta dos liberais ao poder em todo o Império, assumiu o comando da política provincial e a chefia do Partido Liberal.
Eleito deputado geral, nas eleições realizadas em agosto daquele ano, viajou ao Rio de Janeiro “para tratar do reconhecimento de sua eleição” e assumir sua cadeira na Assembleia Geral, cuja posse, estava marcada para o dia 20 de novembro. Mas, logo no dia 15, houve a proclamação da República, fato que provocou a dissolução da Assembleia Geral e do Senado. Retornando à Paraíba, reiniciou suas atividades no magistério e na advocacia, permanecendo afastado do cenário político até 1892.
Durante o Governo do Marechal Floriano Peixoto, foi convidado pelo aquele presidente para ocupar o Ministério da Justiça. No entanto, delicadamente, recusou o referido convite, preferindo “ficar com os pudores do seu status de quase deputado geral do Império”.
Homem de princípios, chegou a afirmar: “Sou homem de crença. O governo do Marechal é um governo revolucionário; fazendo parte desse governo terei de encontrar-me muitas vezes em contingência de trair o governo ou a minha consciência. Resolvi ficar com ela, recusando o cargo”.
Em 1892, foi escolhido para integrar a Comissão Diretora Provisória do Partido Republicano, fundado e comandado na Paraíba, por Álvaro Machado. No ano seguinte, foi nomeado Inspetor da Alfândega, na Bahia, por ato do Presidente Floriano Peixoto, “sem consulta prévia e em honrosas circunstâncias que não lhe permitiam a escusa”.
Jornalista exímio, Gama e Melo começou a escrever nas páginas do “Jornal do Recife” e do ‘Jornal do Comércio”, quando ainda acadêmico de Direito. Durante vários anos, militou na imprensa provinciana e foi o primeiro redator-chefe de “A UNIÃO”, fundada a 2 de fevereiro de 1893, na capital paraibana, ano em que foi jubilado como professor do Liceu Paraibano.
Provedor da Santa Casa de Misericórdia, em março de 1896, teve seu nome homologado em convenção realizada pelo Partido Republicano, como candidato à sucessão de Álvaro Machado/Walfredo Leal. Eleito pela Assembleia Legislativa (via indireta), tomou posse no Governo da Paraíba a 22 de outubro daquele mesmo ano.
Seu governo, prolongou-se até 22 de outubro de 1900, oportunidade em que passou o cargo ao sucessor - Dr. José Peregrino de Araújo - elegendo-se em seguida, senador da República, para um mandado de nove anos.
Durante seu mandato como senador, disputou sem êxito a Vice-Presidência do Senado Federal, perdendo-a para o senador Rui Barbosa, por apenas 2 votos. Na Alta Câmara, integrou a Comissão de Legislação e Justiça, inicialmente, como membro e posteriormente, como presidente; presidiu a Comissão de Redação de Leis e compôs a Comissão Especial de Reforma Eleitoral.
Em 1906, levado por circunstâncias internas da política paraibana, rompeu com o líder Álvaro Lopes Machado - o líder supremo da política paraibana - que do Rio de Janeiro, “decidia unipessoalmente as magnas questões em que a Paraíba deveria opinar, sem ouvir, no entanto, a representação federal do Estado”. A gota d’água para o referido rompimento foi a imposição do nome do Dr. João Lopes Machado - irmão do senador Álvaro Machado - como candidato à sucessão do Monsenhor Walfredo Leal, candidatura que encontrou forte oposição dentro de seu próprio partido.
Formada a dissidência, Gama e Melo teve seu nome lançado como candidato oposicionista ao Governo do Estado, apoiado por três deputados federais e quatorze estaduais. Ao longo da campanha, fundou o jornal “A REPÚBLICA”, para defender sua candidatura, junto à sociedade paraibana. Mas, de pouco ou quase nada valeram seus esforços.
No final, foi derrotado numa campanha onde a vontade popular foi superada pela arte da política. Seu insucesso político, trouxe a depuração de todos os seus candidatos eleitos à Câmara Federal, sendo, ao seu grupo, reservado apenas três vagas na Assembleia Legislativa.
A derrota de 1907, marcou fortemente a pessoa do senador Gama e Melo, que deixando a Paraíba, recolheu-se ao Rio de Janeiro, falecendo a 10 de abril de 1908, antes mesmo de concluir seu mandato senatorial.
Homem de sólida cultura, orador renomado, educador, filósofo, poliglota, jurista e publicista, Antônio Alfredo da Gama e Melo foi sem dúvida um estadista e seu nome merece ser lembrado pelas gerações futuras.
De sua bibliografia, ficaram poucos artigos, notas, comentários, alguns discursos e pareceres, registrados nos Anais do Senado Federal que, lamentavelmente, ainda não foram coligidos e publicados num merecido volume, o que enriqueceria em muito a bibliografia paraibana. Por tudo o que representa à cultura estadual, Gama e Melo teve seu nome escolhido para patrono da cadeira nº 17, da Academia Paraibana de Letras, que atualmente é ocupada pelo historiador e escritor Joacil Pereira de Brito.  

GOSTOU? COMPARTILHE!

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More