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domingo, 24 de fevereiro de 2013

É PATOENSE O AUTOR DO PRIMEIRO CORDEL PUBLICADO NO BRASIL

José Ozildo dos Santos

A Literatura de Cordel está relacionada ao romanceiro popular. Originária do cancioneiro da Península Ibérica, no Nordeste brasileiro ela encontrou um ambiente sociocultural propício, rapidamente difundiu-se e tomou forma própria. E ao patoense Silvino Pirauá de Lima cabe a primazia de ter sido o autor do primeiro folheto de cordel publicado no Brasil. Autor de ‘História do Capitão do Navio’ e ‘Peleja da Alma’, nasceu na Vila de Patos, em idos de 1848. Filho de agricultores, teve uma infância pobre e distante da escola. No entanto, possuidor de uma grande vivacidade, cedo aprendeu a versejar.

Silvino Pirauá de Lima

Tocador de viola admirável e repentista exímio, considerado o mais notável de todos os discípulos do famoso repentista Francisco Romano, da Serra do Teixeira, de quem era grande amigo, Silvino Pirauá foi depois de seu mestre, o maior cantador do Nordeste. Venceu inúmeros cantadores e jamais foi vencido. Glosador e poeta popular, viveu a primeira fase de sua vida, cantando pelas feiras livres do sertão paraibano, tendo ainda sido o introdutor da regra da ‘deixa’, que obriga o adversário a compor rimando com o último verso deixado pelo contendor.
Poeta andarilho, Silvino Pirauá vivia exclusivamente de sua arte e rimava para arranjar o pão. Em companhia de seu discípulo Josué Romano, anualmente percorria os Estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, cantando nas feiras do interior. Em 1898, fugindo dos efeitos maléficos de uma grande estiagem, que assolava o sertão paraibano, deixou definitivamente a Vila de Patos e transferiu-se para Recife, onde fixou residência num bairro pobre e passou a exercer seu ofício, cantando nas feiras e praças da capital pernambucana. Foi nessa época, que levado por dificuldades econômicas, iniciou a publicação de seus versos, tornando-se o percussor do romanceiro popular.
Um dos mais tristes fatos da vida desse notável poeta-cantador, foi narrado por Sebastião Nunes Batista, em sua ‘Antologia da Literatura de Cordel’. Homem pobre - a exemplo da maioria dos cantadores nordestinos - falecendo sua esposa, “valeu-se da ‘cantoria’ para custear-lhe o enterro”.  
Foi na capital pernambucana, que Silvino Pirauá consagrou-se como poeta e cantador de viola. E, formando parceria com José Galdino da Silva Duda e posteriormente com o cantador pernambucano Antônio Batista Guedes (seu discípulo), percorreu as mais importantes feiras do interior nordestino, cantando e vendendo folhetos, difundindo a Literatura de Cordel.
Possuidor de uma memória prodigiosa, Silvino Pirauá tinha conhecimentos rudimentares de Geografia, História Universal e Sagrada. Cognado por seus colegas como ‘o poeta enciclopédico’, celebres são suas ‘descrições’ sobre a Paraíba e o Amazonas. Em meados de 1913, encontrava-se cantando em Bezerros, no interior de Pernambuco, quando contraiu varíola e prematuramente faleceu, aos 65 anos de idade. Escreveu e publicou inúmeros folhetos, entre os quais, os mais conhecidos são: ‘Verdadeira Peleja de Francisco Romano e Inácio da Catingueira’, ‘A Vingança do Sultão’, ‘As Três Moças que Quiseram Casar com um só Moço’, ‘História do Capitão do Navio’, ‘História de Zezinho e Mariquinha’, ‘Desafio de Zé Duda com Silvino Pirauá’, ‘Descrição da Paraíba’, ‘E Tudo Vem a Ser Nada’, ‘Descrição do Amazonas’, ‘História de Crispim e Raimundo’ e ‘Peleja da Alma’.
Os romances de Pirauá, que, ao longo dos tempos vinha sendo “reeditados e consumidos pelo homem do campo”, hoje, juntamente com a obra de Leandro Gomes de Barros e outros expoentes da Literatura de Cordel, a exemplo de Patativa do Assaré, são objetos de estudos nos meios universitários. Embora não lhe caiba a maior glória de nosso romanceiro popular, Silvino Pirauá é lembrado na história de nossa Literatura de Cordel, por seu pioneirismo. Poeta original, em sua produção, abordou os mais variados temas, dando uma grande contribuição à Literatura Popular Nordestina. Lamentavelmente, é um nome ignorado na cidade, que lhe serviu como berço.
  
Publicado na revista Patos de Todos Nós, edição de outubro de 2005

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O RIO GRANDE DO NORTE NA CRÔNICA POLICIAL DO SÉCULO XIX - V

MARIDO MATA MULHER EM BREJINHO
(06-01-1871)

José Ozildo dos Santos

De 11 de setembro de 1870 a 28 de agosto do ano seguinte, foram praticados 12 homicídios na Província do Rio Grande do Norte. No entanto, desses crimes um merece menção por sua gravidade e pelas circunstancias de que se revestiu. Na época, a pequena povoação de Brejinho era termo da Comarca de Goianinha. Seus habitantes exploravam a agricultura de subsistência e viviam de forma pacata.
O calendário registrava o dia 6 de janeiro de 1871. Era meio dia em ponto. O padre Manoel Ferreira Borges, vigário de Goianinha havia acabado de celebrar a Missa de Reis e um grande número de pessoas transitava pelas ruas da pequena povoação.
Sem um motivo conhecido, Manoel Francisco da Trindade, que acabara de ouvir a missa, “no meio de um numeroso concurso de pessoas, disparou sobre sua infeliz mulher, Joaquina Maria do Nascimento, um tiro de bacamarte, do qual lhe resultou a morte duas horas depois”.
O medo e o desespero tomaram conta da pequena povoação. O criminoso, ainda de arma em punho, logo evadiu-se do local. A vítima, recolhida por terceiros, agonizou até a morte, sem, contudo, receber qualquer assistência médica, pois ali não havia médicos, nem práticos.
O subdelegado de polícia local, Manoel Antônio Bezerra, após ciência de tão deplorável acontecimento, tomou providências enérgicas: reuniu cerca de cem homens armados e saiu no encalço do assassino, que havia se embrenhado pelas matas.
E, quando a vítima dava seu último suspiro, o enérgico representante da Lei - duas horas após o ocorrido - entrava na povoação de Brejinho conduzindo preso o marido assassino. Ainda naquela tarde, procedeu-se o exame de corpo delito e abriu-se o processo contra o delinquente, que conduzido à cadeia pública da vila de Goianinha, ali aguardou seu julgamento.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O RIO GRANDE DO NORTE NA CRÔNICA POLICIAL DO SÉCULO XIX - IV


O BÁRBARO ASSASSINATO DE UMA INOCENTE EM
JUCURUTU (31-08-1889)

José Ozildo dos Santos

A crônica policial do século XIX registra no Rio Grande do Norte um bárbaro homicídio ocorrido na antiga povoação de São Miguel do Jucurutu, parte integrante do município de Caicó, à época, ‘Cidade do Príncipe’.
No dia 3 de agosto de 1889, o senhor Manuel Tomás de Araújo, que ocupava o cargo de sacristão da Matriz de São Miguel de Jucurutu, compareceu à ‘Cidade do Príncipe’ para denunciar à imprensa, à polícia e à justiça, um fato gravís­simo ocorrido em sua localidade.
Em seu relato, Manuel Tomás informou que no dia 31 de julho daquele ano de 1889, encontrava-se na Igreja Matriz de Jucurutu, quando “apresenta­ram-lhe para dar à sepultura o cadáver de Rita, de 4 anos de idade, filha de Luiza, liberta do finado Major José Batista dos Santos. Estra­nhando ele que a própria mãe e a avó da infeliz criança se tivessem encarregado de levarem o cadaverzinho ao cemitério, quando existia um homem em sua companhia, interrogou-as, e viu imediatamente as suas lágrimas, aumentarem e entre outras frases entrecortadas pelos soluções dizerem: “Não choraríamos tanto se Rita tivesse sido  morta por Deus”.
Após ouvir semelhantes palavras o denunciante não consentiu que o corpo da menina Rita fosse sepultado, sem antes se proceder um exame de corpo delito. Assim, por falta de autoridade policial na localidade, convidou entre outras pessoas qualificadas no lugar, o capitão Francisco Brito, o tenente José Batista da Natividade, além dos senhores José Tomas e Honorato de Araújo, “para examinarem minuciosamente o cadáver, no qual encontraram sinais evidentes de arranhaduras de unhas no pescoço, manchas no corpo e o pescoço visivelmente deslocado”.
Sem muito esforço, logo chegou-se ao autor de tão horroroso fato. Tratava-se de um indivíduo conhecido por Manuel Cutuca, que odiava a criança e após matá-la, não consentiu que seu cadáver fosse amortalhado por estranhos. Quando o fato chegou ao conhecimento público, o assassino no mesmo dia evadiu-se.
Após informada, a autoridade policial do município de Caicó determinou a exumação do cadáver da infeliz criança e constatou que a mesma teve sua cabeça separada do tronco. Lamentavelmente, apesar das buscas promovidas pela força policial, o criminoso não foi capturado.

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