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sábado, 13 de janeiro de 2024

 

SERIDÓ E SUA GENTE

  

Pery Lamartine

 

              O POETA POPULAR DE CURRAIS NOVOS, Celestino Alves, escreveu esta frase: “O Seridó é uma pequena região do Rio Grande do Norte, uma microrregião do Brasil, assim podemos dizer, um pedacinho de tabuleiro, jogado no infinito do mundo em que vivemos”. Com sua verve, ele localizou bem a região que tem características próprias. Mas, para se entender melhor o Seridó e sua gente, tem que conhecer o início de tudo: no princípio eram léguas é mais léguas de tabuleiro ondulado e piça rento, cortado por córregos, riachos e alguns rios temporários, alimentados por um regime de chuvas escassas, caídas, em geral, no primeiro semestre de cada ano. Eram comuns secas prolongadas, acompanhadas de um sol abrasador, castigando todo aquele sertão e os seres vivos que ali habitavam. A bem da verdade, não se pode dizer que existia floresta, só umas poucas matas acompanhando os caminhos d'água. Na chã dos altos a vegetação era mais aberta: só crescia jurema preta, faveleira, capim panasco, algumas ervas rasteiras e os espinhos, ou seja, o cardeiro, o xique-xique e a coroa de frade. Nas terras mais férteis das várzeas a mata era bem fechada: crescia o mofumbo, o pereiro, o angico, o cumaru, a aroeira, o juazeiro e outras essências florestais, assim como, a acolhedora oiticica.

Os animais habitantes daquelas ribeiras eram onças, gatos do mato, raposas, tatus, maritacacas, macacos, tejuaçus e outros animais menores. Aves, predominavam as pombas (rolinha, asa branca, juriti e arribaçã); acauãs, seriemas, gaviões, carcarás, urubus e até as emas habitavam também aquelas ribeiras, além de um grande número de pássaros menores, de cantos maviosos, tais como o canário da terra, o galo de campina, a graúna, e o gracioso cancão. Nas aguadas não faltava o tetéu, o furabarreira, o flecha-peixe, o mergulhão, as garças, a marreca e uma infinidade de outras aves aquáticas. Aquele sertão sempre foi riquíssimo em aves. O bicho mais perigoso que se tem notícia eram as cobras; a cascavel com seu veneno mortal, a jararaca cuja picada não havia cura e cobras que não ofereciam perigo.

Nesse ambiente da caatinga ressequida e vales verdejantes, dominava o bugre, índios da tribo Tarairiú, mas conhecidos por Janduís, caçadores por excelência, senhores daquelas ribeiras, até as nascentes. Tanto os índio, como os animais e os vegetais dessa região, viviam inteiramente adaptados àquele ambiente hostil. A chegada do homem branco, com o descobrimento, trouxe para o Seridó um certo desequilíbrio ecológico cujas consequências ainda hoje permanecem.

O tempo avançava e num dia de março de 1535, assumia em Pernambuco, o titular daquela Capitania, Sr. Duarte Coelho Pereira. Aquele cidadão português trazia na sua esteira além dos familiares, “gente nobre e luzida” que pertenciam à classe dominante de Portugal. Essa informação contradiz com aquela que se ensina nas nossas escolas de que para o Brasil só vinham degredados, criminosos e prostitutas. Os colonos instalaram-se com engenhos de açúcar e o que ocorreu na Capitania, num período relativamente curto, foi uma verdadeira explosão de desenvolvimento rural e superprodução na indústria açucareira, abarrotando de açúcar a metrópole e toda Europa, criando uma imensa crise com a Holanda, tradicional fornecedora do produto. Há quem afirme que a invasão holandesa no Nordeste foi uma retaliação a este estado de coisas.

A cana de açúcar, embora fosse vitoriosa na zona da mata de Pernambuco e no vale do Paraíba, cuja atividade muito dependia da criação de bovinos para atender aos engenhos, como animais de tração ou fornecer couro para os manufaturados, leite e carne para a população. No início, a baixa densidade demográfica da região, permitia amplos espaços vazios entre as propriedades. Na medida em que esses espaços foram sendo ocupados e a cerca de arame farpado ainda não estava em uso, o gado invadia as áreas agrícolas, criando atritos entre os vizinhos. Esses atritos iniciais foram se transformando em conflitos tão frequentes e as queixas eram tantas que o Governo Real decidiu intervir disciplinando o assunto. Segundo uma publicação do Ministério da Educação e Cultura de 1959 com o título ‘O PASTOREIO NA FORMAÇÃO DO NORDESTE’ da autoria do Sr. Costa Porto, vem fornecer valiosas informações que ajudam a compreender o que houve naquela fase da vida nordestina. O autor informa que uma certa Carta Régia determinou “... que não se pudesse criar gados senão a dez léguas além dos limites da área da cana-de-açúcar...”. Com essa medida, a pecuária foi deslocada para o sertão. O avanço para o interior foi lento e constante, pois dependia de fatores adversos tais como, os longos períodos de seca e a pacificação dos índios, que estava em curso, especificamente aqueles do Rio Grande do Norte que mantinham uma guerra de extermínio com os brancos. A penetração subiu a Serra da Borborema, onde surgiram cidades como Campina Grande, Picuí, Esperança, Soledade e seguiu rumo oeste, deixando os marcos pelo caminho: Santa Luzia, Patos e Pombal (ex-Arraial do Bom Sucesso de Piancó).

Sobre Pombal há uma estória de tradição oral que carece de confirmação: conta-se que o chefe da ‘Entrada’ encontrando um local favorável à margem do rio Piancó, decidiu instalar ali uma base de apoio, batizada com o nome de Arraial do Bom Sucesso do Piancó. Esse pioneiro cujo nome não identifiquei, tinha problemas com a justiça em Portugal, daí porque estava vivendo deste lado do oceano. Algum tempo depois do arraial instalado, chegou pelo correio uma boa nova; a anistia do pioneiro, assinada em Portugal pelo Marquês de Pombal, em retribuição aos bons serviços prestados à Coroa, pelo pioneirismo, aqui nas terras brasileiras. Houve comemorações em regozijo ao fato e o pioneiro mandou trocar o nome do arraial que passou a ser chamado Marquês de Pombal, permanecendo até hoje, caindo o Marquês por falta de use. O pioneiro em questão poderá ter sido um dos irmãos Oliveira Ledo, grandes caçadores de índios e que deixaram muitas fazendas por todo aquele sertão, tendo sido eles os requerentes da Sesmaria da ribeira das Espinharas onde, posteriormente, foi implantada a fazenda Serra Negra, hoje sede do município e o berço das famílias Faria e Mariz.

No avanço para o sertão, no rumo do oeste, os vaqueiros foram encontrando as nascentes dos rios que correm para dentro do Seridó e desceram neles, ocupando as terras férteis dos seus vales. A penetração empurrava o vaqueiro cada vem mais para o interior, à procura de novos campos de pastagem. A história do Nordeste está cheia desses casos, desde a conquista da região sanfranciscana até o sul do Piauí, onde alguns dos antigos seridoenses costumavam se abastecer de gado, para refazer o rebanho de engorda. Os rastros dos pioneiros poderão ser seguidos através das antigas fazendas ainda hoje preservadas às margens dos rios seridoenses, onde são encontrados aquelas casas senhoriais de duas águas, cumeeira alta e longos “telhados de arrasto”, testemunhas da época do desbravamento da região.

Pode-se dizer que a ocupação do Seridó, foi uma decorrência dos conflitos ocorridos na zona dos engenhos de Pernambuco ou Paraíba, já no século XVII, envolvendo os poderosos Senhores de Engenho e os Criadores de Gado. Por ironia, em alguns casos, aqueles senhores e os criadores eram as mesmas pessoas.

E que homens eram aqueles, promotores dessa penetração incontida para o interior do sertão nordestino? Eles representavam as primeiras gerações de brasileiros, descendentes diretos daquelas famílias chegadas, “gente nobre e luzida”, trazidas para Pernambuco por Duarte Coelho. Foram eles os que entraram sertão a dentro com suas famílias, seus rebanhos e implantaram as fazendas de criar e o estilo de vida que conhecemos até hoje no Seridó.

As famílias pioneiras que participaram da ocupação dessa região, durante o Século XVII, são conhecidas e ainda hoje estão lá os seus descendentes. A escravidão negra pouco participou da formação do Seridó, pois a atividade econômica praticada exigia reduzida mão de obra. Os casamentos interfamiliares havidos, tornou o homem seridoense um personagem com tipo físico definido e linguajar próprio (Câmara Cascudo, no passado, já havia registrado o linguajar sertanejo que, segundo ele, usa expressões arcaicas, ou seja, o português no Século XVII. Exp.: “pro mode", “entonce", “adispois". Em Portugal, ainda hoje se fala: “vou sair mais fulano” igual como fala o seridoense do povo). A descendência lusa e o isolamento apurou mais ainda geneticamente, gerando um homem alto, feições afiladas, cabelos castanhos claros e em alguns casos loiros, olhos com tendência a azul (marca do sangue Celta vindo do Norte de Portugal), dono de um comportamento reservado e grande empreendedor.

Para melhor compreensão vai aqui uma informação a respeito dos Celtas. Esse povo, indo-germânico, no seu apogeu dominou o norte da península Ibérica, deixou suas marcas na região do Minho em Portugal e na vizinha Galícia na Espanha. Do Minho veio a maioria dos imigrantes portugueses para o Nordeste do Brasil ao tempo de Duarte Coelho em Pernambuco. Daí se explicar os tipos que nós chamamos ‘galegos’, muito comuns no Seridó, especificamente no município de Carnaúba dos Dantas:

 

“Meninas de íris turquesa,

Cabelos algodoais”.

 

Como disse o poeta modernista natalense Paulo Jorge Dumaresq, depois de visitar a região.

Juvenal Lamartine de Faria, meu avô, um ilustre filho da terra, um dia escreveu esta frase que acho própria para este momento. “... as asperezas do clima e as incertezas do inverno na zona sertaneja do Estado, determinaram a formação de um povo sóbrio, resistente e tenaz...”. Ele esqueceu apenas a força genética que o seridoense herdou, vindo do além mar.

 

 

 

Publicado na Revista Século (Atualidade e Cultura), Ano I, Nº 2, Natal, dezembro/1997, págs. 97-99.

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