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sábado, 19 de fevereiro de 2011

PATOS - PB

CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA ECLESIÁSTICA
DE PATOS


José Ozildo dos Santos


I - Os primeiros registros históricos da Freguesia de Nossa Senhora da Guia


A história eclesiástica de Patos confunde-se com a própria história da cidade, cujo núcleo inicial, a exemplo de várias outras localidades do sertão paraibano, nasceu da conjugação do elemento religioso, apoiado na pecuária, suporte econômico que proporcionou o povoamento efetivo do interior nordestino.
Aos 26 de março de 1766, Paulo Mendes de Figueiredo e sua esposa Maria Teixeira de Melo, associados ao desbravador João Gomes de Melo e sua esposa Mariana Dias Antunes, moradores nas proximidades da ‘Lagoa dos Patos’, doaram partes de suas terras para a constituição do patrimônio de uma futura capela, que pretendiam erigir, em louvor a Nossa Senhora da Guia.


Seis anos mais tarde, a referida capela já estava concluída. Ao seu redor, Paulo Mendes de Figueiredo e João Gomes de Melo construíram as primeiras casas de moradas, principiando a fundação da povoação dos ‘Patos’, que, adquirindo delineamento urbano, tornou-se sede de freguesia aos 6 de outubro de 1788.
O território da Freguesia de Nossa Senhora da Guia (dos Patos), foi desmembrado da Matriz de Nossa Senhora Santana, sediada na antiga Vila Nova do Príncipe, atual cidade de Caicó, no vizinho Estado do Rio Grande do Norte (e não da de Pombal, como até agora vem sendo divulgado). Principiando na Serra do Teixeira, o referido território abrangia toda a Ribeira das Espinharas. E, de acordo com a Provisão Régia nº 14, que criou a referida sede paroquial, a ela “também lhe pertencerá o Rio do Sabugi até a fazenda do Jardim e a Capela de Santa Luzia, com todos os seus moradores na distância de quatro léguas em circulo”.
No entanto, o primeiro Vigário de Patos, Padre Manoel Rodrigues Xavier (e não o Padre José Inácio da Cunha Souto Maior, como já foi divulgado), “arrimado na declaração episcopal, segundo a qual os sítios que distassem quatro léguas da povoação de Santa Luzia, enquadrar-se-iam na jurisdição da Matriz dos Patos, declarou que os moradores no Espírito Santo (Ouro Branco-RN), passavam a ser seus fregueses”.
Esta decisão, não agradou os moradores daquela localidade, que pretendiam continuar pertencendo à Freguesia da Vila Nova do Príncipe. Assim, em 1790, endereçaram uma longa representação ao Bispo de Olinda, que designou o Cônego Penitenciário Manoel Vieira de Lemos Sampaio para tratar do assunto. Este, em longo parecer, decidiu a favor dos habitantes da futura cidade de Ouro Branco, sepultando as aspirações do Padre Manoel Rodrigues Xavier.
A antiga ‘Povoação dos Patos’ pertenceu ao território do município de Pombal até 9 de maio de 1833, quando, por Resolução do Conselho da Província, foi elevada à categoria de município com a denominação de ‘Imperial Vila de Patos’. Assim, emancipada politicamente, Patos passou a ter autonomia e Conselho Administrativo próprio. Sua instalação oficial ocorreu aos 22 de agosto daquele ano.
A primeira preocupação da Câmara Municipal de Patos, foi a discussão da Lei Geral, que demarcou os limites da antiga Vila Nova do Príncipe, contrariando interesses patoenses. Assim, logo no início de 1834, aquela Casa Legislativa enviou à Assembléia Geral uma longa representação, solicitando a revogação do Decreto de 25 de outubro de 1831.
No entanto, essa representação não atingiu seus objetivos. Uma Comissão formada na antiga Câmara dos Deputados, opinou pela manutenção do teor do mencionado decreto, cabendo à Vila dos Patos, “todo o território assinalado no ato de criação de sua freguesia”. A solução apresentada não agradou a classe política paraibana e a questão dos limites entre as duas províncias, arrastou-se por longos anos.
O primeiro bispo a visitar a sede da Freguesia de Nossa Senhora da Guia, foi Dom João da Purificação Marques Perdigão, titular da Diocese de Olinda - a cuja jurisdição pertencia todo o território paraibano - que aqui esteve em junho de 1839. Em Patos, aquele prelado sofreu “grande amargura por causa do depravado procedimento do vigário” local, que, publicamente, vivia em concubinato com uma senhora da Vila, morando na mesma casa e de cuja união proibida aos olhos da Igreja, havia alguns filhos. Entretanto, o ilustre visitante limitou-se a determinar que o referido vigário, providenciasse residência para sua amante, em local distante da respectiva freguesia.

II - O Padre Manoel Cordeiro da Cruz e sua ação sacerdotal em patos

Os registros históricos sobre os primeiros vigários da Freguesia de Patos são escassos. Quase nada existe nos Livros de Tombo da Matriz de Nossa Senhora da Guia. Somente a partir da segunda metade do século XIX, é que as informações a esse respeito, tornaram-se mais concretas.
Em 1853, após aprovação em concurso, o Padre Manoel Cordeiro da Cruz tornou-se vigário colado da Vila de Patos, realizando uma ação sacerdotal digna de registro. Espírito incansável, levou os sacramentos aos mais distantes recantos de sua extensa freguesia, prestando significativa assistência aos seus fiéis, quando da epidemia do ‘cólera morbus’, que assolou a Paraíba, em 1856. Em Patos, o referido ‘mal do Ganges’, vitimou 24 pessoas, que foram sepultadas em vala coletiva, distante do perímetro urbano.
Passado aquele flagelo, o governo provincial determinou a construção do primeiro cemitério na referida vila, cuja benção foi procedida pelo Vigário Manoel Cordeiro da Cruz, aos 19 de janeiro de 1857, em solenidade que contou com a presença de grande número de pessoas e do Padre José Jácome de Fontes, coadjutor da Freguesia de Nossa Senhora da Guia, além dos senhores Luís Pedro de Azevedo, Joaquim Teodoro Sousa, Baldoino Amando Freire, Antônio Alves da Nóbrega e José Galdino de Oliveira Nóbrega, figuras de destaques na sociedade patoense da época.
Aos 13 de agosto daquele ano, a Freguesia de Patos, recebeu a visita do Padre Francisco de Holanda Chacon, ‘presbitero secular, Cavalheiro da ordem de Cristo, Vigário Collado da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, da Cidade de Areia e n’ellla vigário de Vara, Visitador Geral das freguesias da Província da Paraíba e Delegado do Santo Crisma”. Aqui, aquele visitador encontrou a Matriz em bom estado e certificou que os assuntos da freguesia, estavam de acordo com as normas canônicas.
Três anos mais tarde, aos 8 de outubro de 1860, Patos recepcionou o Dr. Luís Antônio da Silva Nunes, Presidente da Província, que procedente de Pombal, realizava uma visita ao interior da Paraíba. Na oportunidade, o referido governante foi saudado pelos membros da Câmara Municipal, sob a presidência do Vereador João Machado da Costa e hospedou-se na residência do Vigário Manoel Cordeiro da Cruz, membro do Partido Conservador, que, à época, já havia representado este município na Assembléia Provincial, durante a legislatura de 1858-1859.
Sempre preocupado com seus paroquianos, o referido pároco em carta a Dom João da Purificação Marques Perdigão, datada de 12 de maio de 1862, informava que em sua Freguesia havia “um costume improcedente (...) de raptar as moças por sedução para casar, resultando d’esta sorte disgostos, intrigas e desassocêgos das famillias (...). Desde que administro esta Freguesia, que tenho reprovado tal procedimento, porem não tenho conseguido bom resultado (...)”.
Naquele mesmo ano, aos 8 de dezembro, o Vigário Manoel Cordeiro procedeu a benção do sino, que foi colocado no primeiro cemitério construído na Vila de Patos, localizado a poucos metros da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia. Anos mais tarde, benzeu a Capela de São José, construída na povoação, núcleo inicial da atual cidade de São José de Espinharas, em solenidade que foi comunicada aos seus superiores nos seguintes termos: “Aos seis de outubro de mil oito centos e sessenta e nove em virtude de licença, conferi a benção da Capela de Sam José d’esta Freguesia, em solemnidade, assistindo os Reverendos Joaquim Félix de Medeiros, Aquilino Satyro e Souza e Joaquim Alves Machado e mais povo. E para constar faço este assento, que assigno. Vigro. Manoel Cordeiro da Cruz”.
Antes, porém, aos 8 de setembro de 1869, na mesma localidade, havia procedido a benção do cemitério local, construído em cumprimento a uma determinação do Presidente da Província. Em 1870, o Padre Manoel Cordeiro retornou à Assembléia Legislativa, eleito para cumprir um segundo mandato como deputado provincial.
Sua permanência prolongou-se até princípios de 1878, quando foi removido para Maceió. Anos mais tarde, o referido sacerdote foi designado vigário da Freguesia de São Francisco das Chagas, sediada em Canindé-CE, sua terra natal, onde exerceu seu sacerdócio de 29 de abril de 1888 a 5 de outubro de 1898. Em Patos, foi substituído pelo Padre Joaquim Alves Machado, que desde 30 de agosto de 1868, ocupava o cargo de coadjutor da Matriz de Nossa Senhora da Guia.
Nascido aos 15 de julho de 1818, o Padre Manoel Cordeiro da Cruz era filho do casal José Joaquim da Cruz e Maria da Natividade Barbosa Cordeiro. Fez seus estudos eclesiásticos no Seminário de Olinda, ordenando-se aos 18 de fevereiro de 1842, tendo como companheiro, entre outros, o Padre Gregório Ferreira Lustosa, o primeiro sacerdote nascido na futura cidade de Patos.
Atencioso às determinações de seus superiores e zeloso nos registros dos fatos relacionados à sua Freguesia, o Padre Manoel Cordeiro da Cruz legou à posteridade as mais concretas informações sobre a Freguesia de Patos, no século XIX. Em Canindé, viveu seus últimos anos de vida, falecendo no dia 25 de julho de 1911, conforme informações contidas no livro ‘Notas Políticas e Religiosas de Canindé’, de autoria do Padre Luís de Sousa Leitão, antigo vigário de Pentecoste-CE, que com ele conviveu e traçou-lhe significativo perfil biográfico.


FONTE:
SANTOS, José Ozildo dos. Contribuição à história eclesiástica de Patos. Patos: Soluções & Escritos, 2005, p. 7-12.

Um comentário:

  1. Julio Cezar Marques Ferreira Lima13 de março de 2011 07:52

    Parabés pela iniciativa de resgatar a história de sua terra em especial por ter lembrado do nosso saudosoO Padre Manoel Cordeiro da Cruz
    1815 – No dia 18 de Julho, nasceu em Canindé, o Padre Manoel Cordeiro da Cruz, filho do Português José Joaquim da Cruz Saldanha e Dona Maria do Nascimento Barbosa Cordeiro (Natividade). O Padre Manoel foi Vigário de Patos na Paraíba, Coité (hoje Aratuba) e na Paróquia de São Francisco em Canindé, Hélio Pinto pag.23
    Sou de Canindé Ce estou pesquisando sobre a História de Canindé, tenho aproximadamente 3.000 fotografias históricas de Canindé e um acervo de documentos histórico na verdade estou tentando publicar um livro.

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