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sábado, 24 de setembro de 2011

TARCÍSIO BURITY

O POLÍTICO E O INTELECTUAL

José Ozildo dos Santos

I - UMA HISTÓRIA DE VIDA

A História da Paraíba pode ser dividida em duas etapas: antes e depois do primeiro governo de Tarcísio Burity. Homem simples, professor universitário, amante da música clássica, ele imprimiu no Estado uma nova forma de governar. E marcou uma época.
Tarcísio de Miranda Burity nasceu na capital paraibana, a 28 de novembro de 1938, sendo filho do casal Luís Gonzaga de Albuquerque Burity e Maria José de Miranda Henriques Burity. Seu pai, cirurgião-dentista, professor-fundador da Universidade da Paraíba, foi catedrático de Histologia, nas Faculdades de Odontologia e de Medicina, tendo publicado diversos trabalhos médicos na maior revista do gênero da época, editada pela Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Tarcísio Burity

No Colégio Nossa Senhora de Lourdes, cursou a alfabetização e fez a 1ª série do curso primário. De 1946 a 1948, freqüentou o Colégio São José, onde concluiu a primeira fase de seus estudos. Ainda muito jovem, revelou-se uma inteligência privilegiada.
Em 1949, após prestar exame de admissão, matriculou-se no Colégio Marista Pio X, de onde saiu para ingressar no Seminário Arquidiocesano da Paraíba. Sem vocação para o sacerdócio, resolveu abraçar a carreira jurídica. Aos 18 anos de idade, foi aprovado em 1º lugar no concurso do vestibular, para a Faculdade de Direito da Paraíba. Acadêmico, logo revelou seu espírito público de liderança entre seus colegas de estudos. Em 1960, foi eleito presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, ensaiando os primeiros passos, que mais tarde, pautariam a vida do grande administrador público, que em vida foi.

II - ESTUDOS NA FRANÇA

Tarcísio Burity bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, na turma de 1961, da qual foi seu orador. No ano seguinte, submeteu-se a um concurso para promotor público. Aprovado e nomeado, assumiu. No entanto, não exerceu suas funções. Agraciado com uma bolsa de estudo, seguiu para Franca, onde fez pós-graduação em Sociologia, na Universidade de Pottier, no período de 1963 a 1964.
Regressando ao Brasil, foi convidado para lecionar na Universidade Federal da Paraíba, onde tornou-se professor das disciplinas de Filosofia do Direito, de Introdução à Ciência do Direito e de Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito de João Pessoa, notabilizando-se por seus conhecimentos e vocação para o magistério superior. Naquela instituição, também lecionou Historia da Educação e Sociologia da Educação.

III - O DOUTORADO NA SUÍÇA

De 1964 a 1970, Tarcísio Burity participou de inúmeras conferências, congressos e cursos, promovidos por várias instituições, dentro e fora do Brasil. Doutor em Ciências Políticas, pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra, Suíça (1967), impulsionado pela forca de seu talento, ganhou fama e seu nome rompeu as fronteiras da Paraíba. Na Faculdade de Direito de Recife, lecionou Direito Internacional Público, no curso de pós-graduação, a nível de mestrado.
Ainda naquela capital, a convite do sociólogo Gilberto Freire, participou do Seminário de Tropicologia, desenvolvido pela UFPE. Posteriormente, por indicação do jurista e professor Miguel Reale, tornou-se presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia do Direito, Secção da Paraíba.

IV - O PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

De 1968 a 1971, Tarcísio Burity foi chefe de Gabinete da Reitoria da UFPB, acumulando as referidas funções com o cargo de professor da Faculdade de Direito e com a coordenação do Curso de Pós-graduação. Professor emérito da UFPB, passou a integrar o Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão, daquela instituição. E, encontrava-se no exercício destas funções, quando, em 1975, foi convidado pelo Governador Ivan Bichara Sobreira para ocupar a Secretaria de Educação e Cultura, por sugestão do ex-Ministro José Américo de Almeida.

V - DE SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO A GOVERNADOR DO ESTADO

Ainda por indicação daquele eminente paraibano, Tarcísio Burity teve seu nome aprovado pelo Presidente Ernesto Geisel para ocupar o governo da Paraíba, em substituição ao Dr. Ivan Bichara, de quem recebeu reconhecido apoio. Eleito, assumiu a 15 de marco de 1979.
O governador Tarcísio Burity ao lado do presidente
João Batista de Figueiredo

Logo no inicio de seu governo, promoveu em João Pessoa, o Seminário de Cultura Brasileira e criou a Orquestra Sinfônica da Paraíba, que em pouco tempo, tornou-se conhecida em todo o Brasil, projetando o nome da pequena Paraíba, no exterior. Ainda em 1979, instalou o Festival de Arte, na cidade de Areia, que foi por ele idealizado quando Secretário de Educação e Cultura, no Governo Ivan Bichara.

VI - REALIZAÇÕES DE UM GRANDE GOVERNO

Em 1980, Tarcísio Burity criou a ‘Fundação José Américo’, instituição cultural - destinada a resgatar a cultura paraibana - e autorizou o inicio da construção do Espaço Cultural José Lins do Rego (FUNESC), na capital do Estado. A 14 de maio de 1982, desincompatibilizou-se do Governo da Paraíba, para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo Partido Democrático Social, oportunidade em que passou o cargo ao Dr. Clovis Bezerra, que na condição de Vice-Governador, concluiu o quatriênio de 1979 a 1983.

Ato de criação da Fundação Espaço Cultural

Prestigiadíssimo e gozando de grande aceitação popular, elegeu-se deputado federal com mais de 179 mil votos, sendo, até o presente, o político paraibano mais votado para o Parlamento Nacional. Era o reconhecimento de seu trabalho e de sua dedicação, à frente do governo estadual.

Tarcísio Burity, Wilson Braga eAssis Camelo, em Esperança (1982)

Na capital federal, durante o tempo em que exerceu seu mandato parlamentar (1983-1986), lecionou na Universidade Nacional de Brasília, algo que também fazia quando era Secretário de Educação e Governador do Estado.

VII - DE VOLTA AO GOVERNO ‘PORQUE O POVO QUIS’

Em 1986, Tarcísio Burity retornou ao governo da Paraíba, ‘nos braços do povo’, derrotando o ex-senador Marcondes Gadelha, por uma maioria superior a 300 mil votos. Durante sua campanha, considerada uma das mais belas da historia política da Paraíba, utilizou o slogan: Burity, Porque o povo quer.

Tarcísio Burity - campanha eleitoral de 1986

Poucos dias antes da posse, foi surpreendido com a notícia do falecimento do Dr. Raymundo Asfora, seu Vice-Governador, encontrado morto em circunstância um tanto misteriosa, na sua Granja Uirapuru, em Campina Grande.
Somando-se ao sentimento de pesar do povo campinense, Tarcísio Burity compareceu aos funerais de seu amigo e companheiro de campanha pela conquista do Palácio da Redenção, proferindo, de improviso, à beira do túmulo daquele grande tribuno, uma belíssima oração fúnebre.

Tarcisio de Miranda Burity em visita a Cajazeiras
e aos estúdios da Norte Publicidades Radiofônicas, em 18 de abril de 1987

Seu segundo governo, não foi operoso como o primeiro. A situação econômica vivida pelo país refletiu fortemente em sua administração. Logo no iniciou do Governo Fernando Collor de Mello, ocorreu o fechamento do PARAIBAN, que grandes prejuízos trouxe ao Estado. Mesmo assim, Tarcísio Burity tudo fez para superar as dificuldades financeiras herdadas do governo anterior e governou a Paraíba até o final de seu mandato.

VIII - O INTELECTUAL

Sócio Benemérito do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, membro da Academia Paraibana de Letras e da Academia Brasileira de Historia (na qualidade de Conselheiro), o Dr. Tarcísio de Miranda Burity também era Sócio Honorário do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, onde foi saudado pelo escritor e historiador Joacil de Brito Pereira, em solenidade realizada no auditório da Casa da Memória Potiguar, na noite de 16 de setembro de 1988.

Tarcísio de Miranda Burity e a Orquestra Sinfônica da Paraíba

Poliglota, falava fluentemente francês, inglês, espanhol e italiano. Era Governador da Paraíba, quando saudou um embaixador da França em visita ao Estado, sendo bastante elogiado pelo referido visitante. Em seu lazer, lia autores anglo-saxônicos no original e traduzia com relativa facilidade os clássicos alemães.
Quando governador da Paraíba, sediou em João Pessoa, o 1º e 2º Congressos Brasileiros de Filosofia do Direito, realizados de 28 de setembro a 3 de outubro de 1980 e de 17 a 23 de julho de 1988, respectivamente, fazendo da antiga Cidade de Nossa Senhora das Neves, o centro provisório do ideal e da justiça.

IX - UM NOME INTERNACIONAL

A convite do governo francês, Tarcísio Burity visitou várias instituições de ensino superior naquele país. Nos Estados Unidos, participou de um treinamento para professores e administradores de universidades, promovido pelo Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras e pela Universidade de Houston (Texas), tendo ainda visitado as instituições administrativas do governo berlinense, a convite do ‘Senat Fuer Inners de Berlin Ocidental’.
Normativista, seguidor de Kelsen, vivia “em permanente contato com juristas e filósofos do Direito, nacionais e estrangeiros” e privava da amizade de Pinto Ferreira, Lourival Vilanova, Miguel Reale, Leitão de Abreu e Machado Paupério, “entre tantos luminares do pensamento jurídico-filosófico”.
Tarcísio Burity é autor de vários ensaios, merecendo destaque para os seguinte: ‘A Nova Conceituação do Direito’ (1961), ‘Reflexões sobre o Direito Internacional Costumeiro’ (1967), ‘Aspectos de Epistemologia Jurídica’ (1969), ‘Direito e Fato na Ordem Jurídica Internacional’ (in: Revista dos Tribunais, nº 440, 1972), ‘Mar Territorial Brasileiro de 200 Milhas’ (In: Revista Jurídica do Ministério da Indústria e Comércio, 1972), ‘A Teoria Tridimensional do Direito de Miguel Reale’ (In: Revista Brasileira de Filosofia, 1º Trimestre de 1972) e ‘A Concepção Kelseniana do Direito Internacional Costumeiro’ (1974).
Amante da música erudita, como figura humana, Tarcísio Burity era um tanto enigmático. Às vezes, mostrava-se impenetrável e interiorizado, parecendo um homem fechado e distante. Polido no trato, quando comparecia a uma roda de amigos, monopolizava a conversa, com seu jeito pessoal, fazendo de todos, seus ouvintes e admiradores. Católico praticante, seguia à risca o conselho de São Paulo: ‘Fazei tudo com decência e ordem’.

X - O MAIS INTELECTUAL DOS POLÍTICOS PARAIBANOS

Tarcísio Burity foi, inegavelmente, o mais intelectual de todos os políticos paraibanos. A trajetória de sua vida foi brilhante. Sua passagem pelo governo da Paraíba veio confirmar o conceito de que já gozava entre seus co-estaduanos. Por duas vezes, tentou eleger-se senador, sendo derrotado nos pleitos de 1998 e 2002. Contudo, não perdeu seu espírito de homem público.
Em vida, Tarcísio Burity foi um intelectual e homem espirituoso, cujo valor indiscutível como administrador público, jamais foi negado até mesmo por seus adversários políticos. Casado, com a professora Glauce Maria Navarro Burity, de importante família paraibana, dessa união nasceram quatro filhos: Tarcísio Filho, Maurício, Leonardo e André Luís Navarro Burity.

XI - O FINAL DE UMA GRANDE VIDA

Em março de 2003, Tarcísio Burity foi submetido a cirurgia no Instituto do Coração, em São Paulo. Retornando à Paraíba, enfrentou uma verdadeira via crucis. Na manhã do sábado, dia 5 de julho daquele mesmo ano, agravando-se seu estado de saúde, foi transferindo às pressas para a capital paulista. Submetido a uma nova cirurgia, faleceu às 9:45 h da manhã da terça-feira, dia 8 seguinte, apesar de todos os cuidados médicos recebidos.
A bordo de um avião Hércules, da Forca Aérea Brasileira, seu corpo chegou à capital paraibana, às 2:40h da quarta-feira, dia 9 de julho de 2003, sendo recebido por um grande numero de populares no Aeroporto Castro Pinto, cujo ato foi marcado por aplausos e lágrimas.
Ainda na madruga daquele dia, o corpo do ex-governador Tarcísio de Miranda Burity chegou à Igreja de Nossa Senhora do Carmo para ser velado. Cumpria-se, assim, mais um de seus desejos, cujo pedido, em vida, formulou à própria família. Quase 20 mil pessoas, segundo cálculo da Policia Militar, compareceram à Igreja do Carmo, no centro histórico de João Pessoa, para render as ultimas homenagens ao ex-governador.
Coberto pelas bandeiras do Brasil e da Paraíba, o referido caixão foi conduzido num carro do Corpo de Bombeiros, até o Cemitério do Senhor da Boa Sentença, onde foi sepultado no final daquela tarde. Ao longo do trajeto, milhares de populares, nas calcadas e janelas dos edifícios e prédios comerciais, acenavam com lenços brancos.
Por um momento, até parecia que chovia pétalas de rosas sobre o cortejo. Assim foram as últimas homenagens prestadas ao homem, ao político, ao intelectual, que honrou e enalteceu a pequena Paraíba e que em vida chamou-se Tarcísio de Miranda Burity.


Publicando no jornal ‘A Voz do Povo’, Patos-PB, Ano VIII, nº 97, edição de junho de 2005.

Um comentário:

  1. eu tenente coronel mamedes neto tive o prazer de fazer a segurança deste grande homem quando o mesmo teve na campanha do seu irmão antonio na cidade de inga na paraiba nesta epuca eu era estava na casa do senhor antonio burity na cidade de inga pa!!

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