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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ERNANI AIRES SÁTIRO E SOUSA

A TRAJETÓRIA DE UMA VIDA


José Ozildo dos Santos


A
 História da Humanidade é traçada pelas biografias de seus grandes homens. Celeiro da cultura paraibana, Patos também já produziu nomes com grandes projeções nos cenários políticos e sociais do Estado. E, impossível é falar nesta cidade sertaneja sem citar o nome de Ernani Sátiro, um dos mais ilustres de seus filhos, que, com coerência, determinação e inteligência, soube imprimir seu nome na Historia da Paraíba.
Patoense, dotado de uma vivacidade de espírito fora do comum, Ernani Aires Sátiro e Sousa nasceu a 11 de setembro de 1911, sendo filho do casal Miguel Sátiro e Sousa e Capitulina Aires Sátiro e Sousa. Seu pai, figura de larga influência, manteve-se na chefia política do município de Patos, durante as três primeiras décadas do século XX, elegendo-se deputado estadual por três legislaturas.
Em Patos, Ernani Sátiro fez seu curso primário, tendo como professores, entre outros, Alfredo Cabral, Rafael Correia de Oliveira e Renato de Alencar. Em 1924, transferiu-se para a capital paraibana, matriculando-se no Colégio Diocesano Pio X. Três anos mais tarde, ingressou no tradicional Lyceu Paraibano, onde concluiu o antigo curso de preparatórios.
Em 1930, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife. Neste mesmo ano, publicou seu primeiro artigo, no jornal paraibano “A União”, tendo iniciado no jornalismo profissional, como redator do “Diário Pernambucano”.

                              Ernani e Otacílio Alecrim, Recife, 1933

Naquela Faculdade, logo cedo engajou-se no movimento estudantil, vindo a ocupar a presidência do Diretório Acadêmico em 1933, ano em que diplomou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, tendo como companheiros de turma, entre outros, José Mário Porto, Apolônio Nóbrega, Adalberto Ribeiro, João Santos Coelho, Ascendino Moura e Aurélio de Albuquerque, nomes de projeção e destaque na vida social e política paraibana.
Ainda no Recife, manteve suas primeiras relações com os escritores Gilberto Freire, Olívio Montenegro e Odilon Nestor, com os quais, manteve fortes laços de amizades, conservados por longos anos.
Ernani, o advogado (1933) 

Volvendo à Paraíba, instalou-se com banca de advogado na cidade de Patos e não desmentindo às tradições de sua família, ingressou na política, elegendo-se deputado à Assembléia Estadual Constituinte, nas eleições realizadas a 14 de outubro de 1934, pelo Partido Libertador.
No ano seguinte, contraiu núpcias com a senhora Antonieta Agra Cavalcanti, de importante família da sociedade campinense. Desta união, nasceram três filhos: Bertoldo Sátiro e Sousa, Sileide Sátiro de Sá Ribeiro e Gleide Sátiro Sales, todos bacharéis em Direito.
Com a dissolução da Assembléia Legislativa, após o Golpe do Estado Novo (10-11-1937), Ernani Sátiro teve seu mandado parlamentar prejudicado. E, fixando residência em Campina Grande, passou a dedicar-se à advocacia, atuando também na capital do Estado e em Patos.
Em 1939, a convite de Argemiro de Figueiredo - que, à época governava a Paraíba, na condição de Interventor Federal - assumiu o cargo de Chefe de Polícia, em cujas funções permaneceu até 9 de julho de 1940, quando foi nomeado Prefeito do município de João Pessoa.
Sua passagem pela Prefeitura da capital, foi meteórica. Dezenove dias após haver tomado posse, veio a queda de Argemiro de Figueiredo, conseqüentemente, determinado seu afastamento do referido cargo.
De 1940 a 1945, Ernani Sátiro fez exclusivamente advocacia em Campina Grande. Nesta época, iniciou-se na literatura, “chegando a escrever uma novela, intitulada ‘Rosa dos Ventos’, que daria origem, posteriormente, ao romance ‘O Quadro Negro”.
Em princípios de 1943, publicou seu primeiro trabalho jurídico, sob o título ‘O Novo Conceito de Legítima Defesa’. Dois anos depois, com a redemocratização do país, ingressou na União Democrática Nacional - UDN, de cuja legenda foi um de seus fundadores na Paraíba, elegendo-se deputado à Assembléia Nacional Constituinte, após obter 6.759 votos.
Durante os trabalhos constituintes, “dedicou-se à defesa dos ideais municipalistas e discutiu, repetidas vezes, o problema da exploração do subsolo”. Na Câmara dos Deputados, logo firmou-se como parlamentar atuante, integrando o bloco da oposição e na condição de vice-líder de sua bancada, projetou-se nacionalmente. Reeleito para sucessivas legislaturas, na Câmara dos Deputados, pertenceu as Comissões de Legislação Social, Justiça, Orçamento e do Polígono das Secas, além de ter participado de várias comissões especiais.
Em 1950, iniciou uma intensa atividade literária, escrevendo numerosos ensaios, que foram publicados em suplementos literários dos jornais O Jornal de Letras, Tribuna da Imprensa, Diário Carioca e Diário de Noticias, no Rio de Janeiro. Quatro anos mais tarde, quando conseguiu seu terceiro mandato federal, publicou seu primeiro livro: “O Quadro Negro” - que foi bem recebido pela crítica literária - seguido depois por “Mariana”, que saiu do prelo em 1958.
Em 1960, seguindo a orientação da UDN, Ernani Sátiro engajou-se na campanha que levou Jânio Quadros à Presidência da República. No ano seguinte, elegeu-se Secretário-Geral de seu partido, em âmbito nacional, adotando após a renuncia de Jânio, uma postura oposicionista em relação ao Governo João Goulart.
Após a Revolução de 1964, foi eleito Presidente do Bloco Parlamentar Revolucionário, “criado com o objetivo de dar sustentação parlamentar ao Governo Castelo Branco”. Eleito Presidente Nacional da UDN (1965), ocupou o referido cargo até a instituição do bipartidarismo.
Em 1968, foi nomeado Ministro do Superior Tribunal Militar. Dois anos mais tarde, já aposentado do STM, foi eleito Governador do Estado da Paraíba, por via indireta, a 3 de outubro de 1970, para o quatriênio de 1971-1975, tendo como Vice, o Dr. Clóvis Bezerra Cavalcanti, ambos filiados à ARENA, partido que representava o situacionismo. Diplomado a 24 de novembro daquele mesmo ano, tomou posse no Governo da Paraíba, perante a Assembléia Legislativa, em solenidade realizada a 15 de março de 1971.
Seu governo foi considerado operoso e probo, destacando-se entre suas realizações, as seguintes obras: Centro Administrativo de Jaguaribe; Edifício da Assembléia Legislativa; Estádio de Futebol de João Pessoa; Estádio de Futebol de Campina Grande; conclusão do Hotel Tambaú; I Adutora de Campina Grande; Mercado de Artesanato (João Pessoa); Edifício de ‘A União’, no Distrito Industrial de João Pessoa; o Fórum Municipal ‘Miguel Sátiro e Sousa’, na cidade de Patos; além da construção de várias Escolas Polivalentes e Colégios Estaduais, nas cidades de João Pessoa, Campina Grande, Sousa, Cuité, Pombal, Cabedelo, Guarabira, Alagoa Nova e Cajazeiras.

Ernani Sátiro, o governador 

Como Governador, permaneceu no exercício de suas funções administrativas até o final de seu mandado e a 15 de março de 1975, transferiu o referido cargo ao seu sucessor, o Dr. Ivan Bichara Sobreira.
Em 1978, reelegeu-se para seu sétimo mandato como Deputado Federal, após obter 28.959 votos. Quatro anos mais tarde, foi reconduzido à Câmara dos Deputados, com a expressiva votação de 51.435 sufrágios. Este, foi, portanto, seu último mandato parlamentar. Faleceu na madrugada do dia 8 de maio de 1986, em Brasília, no pleno exercício de suas atividades parlamentares.
Consciente do dever cumprido, Ernani Sátiro em entrevista concedida ao jornal ‘A União’, publicada sob o título ‘Ernani Admite Abandonar a Política em 1986’, prevendo seu futuro, afirmou: “estou inclinado a não mais me candidatar. No final do meu mandato, eu vou completar 76 anos e acho que não terei mais condições de desempenhar bem a minha função. Agora, ajudarei meus amigos, os candidatos a deputados estaduais e outros cargos. Não os abandonarei, embora a minha tendência seja não disputar mais nenhum cargo”.
Dono de um currículo político invejável, durante mais de cinqüenta anos de vida pública, Ernani Sátiro foi quase tudo: Deputado Constituinte (estadual e nacional), Deputado Estadual e Federal, Prefeito da Capital paraibana, Ministro do Superior Tribunal Militar e Governador.
Homem de letras e escritor talentoso, viveu dividido entre a política e a literatura. Pertenceu à Academia Paraibana de Letras, à Academia Brasiliense de Letras, ao Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e à Academia de Letras de Campina Grande. Criado o Instituto Histórico e Geográfico de Patos, foi escolhido patrono da cadeira nº 3, atualmente ocupada pelo pesquisador Amaury Sátiro Fernandes.
Como leitor, tinha preferência pelas obras de Stendhal, Faulkner, Dostoievski, Proust, Thomas Mann e Wassermann, entre autores os estrangeiros, e, de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Raul Pompéia, Augusto dos Anjos, Carlos Drummond e Manoel Bandeira, entre os nacionais.
Fisicamente, Ernani Sátiro era baixo e forte. Possuía uma voz grave e sonora. Conversando, “dava sempre a impressão de que se encontrava na tribuna da Câmara ou no palanque de um comício” e de modo interessante, conseguia combinar o pitoresco do linguajar nordestino com a mais erudita de todas as prosas. Homem simples, gostava “das coisas certas nos lugares certos” e “era capaz de interromper uma importante conserva política para tomar parte num bate-papo literário”.

Ernani, o jurista
Patoense dos mais ilustres, seus restos mortais, a 8 de maio de 1993, foram transladados para sua cidade natal e depositados num mausoléu construído na Fundação da qual é patrono, instituída pelo Governo do Estado, através da Lei nº 5.048, de 21 de junho de 1988, visando dinamizar a cultura no sertão paraibano.
Em 1992, a referida fundação, iniciou a publicação de suas ‘Obras Completas”, composta por romances, poesias, ensaios, discursos, conferência e pareceres, prevendo a publicação inicial de 38 volumes, projeto este, que encontra-se em pleno desenvolvimento.
Eis a trajetória da vida de Ernani Aires Sátiro e Sousa, um homem, cujo perfil biográfico enriquece a Historia da Paraíba em todos os sentidos e enobrece a cidade de Patos, projetando-a nacionalmente.

Publicado no Jornal A Voz do Povo, Patos-PB, Ano VI, nº 77, julho de 2003.

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