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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

ANTÔNIO BENTO DE ARAÚJO LIMA

José Ozildo dos Santos     

J

ornalista, crítico de arte, poeta, cronista musical e contista, Antônio Bento de Araújo Lima foi uma das maiores expressões do jornalismo e da cultura nacional. Era norte-riograndense por adoção,  nascera a 5 de outubro de 1902, em Araruna, no Curimataù paraibano. Foram seus pais Manuel Otoni de Araújo Lima e Maria Amélia de Araújo (dona Maroca). Seu pai, proprietário do Engenho Bom Jardim, era conceituado homem de negócios e político no município de Goianinha, no Estado do Rio Grande do Norte. O casal, encontrava-se naquela cidade paraibana, participando do casamento de um irmão de ‘dona Maroca’, quando ali nasceu seu primogênito.
Pelo lado materno, Antônio Bento era neto do Major Bento José de Oliveira Lima, de Canguaretama, grande proprietário também no município de Araruna, e, pelo paterno, do Coronel da Guarda Nacional Antônio Bento de Araújo Lima, antigo membro do Partido Liberal, no Império, de quem herdou o nome. No Engenho Bom Jardim, em Goianinha, viveu sua infância, e, é esse ambiente que encontra-se presente na maioria de seus contos.

Antônio Bento de Araújo Lima

Em Natal, no Colégio Diocesano ‘Santo Antônio’, fez o curso secundário, ingressando em 1920 na tradicional Faculdade de Direito do Recife. Naquela capital, conheceu José Lins do Rego e Raul Bopp e com ambos, passou a morar numa república de estudantes, na vizinha cidade de Olinda.
Três anos mais tarde, Antônio Bento transferiu-se para a Faculdade de Direito do Catete, no Rio de Janeiro e na antiga Capital Federal, concluiu seus estudos superiores, diplomando-se em 1925. Nessa fase de sua vida, travou conhecimento com Di Cavalcanti, Portinari e Ismael Nery, e com estes, participou de vários eventos culturais importantes, realizados no Rio de Janeiro.
Em princípios de 1926, fixou residência em São Paulo, onde, ao lado de Mário Pedrosa, manteve uma coluna de crítica musical no ‘Diário da Noite’. Sua permanência na capital paulista foi curta. Mas, suficiente para conhecer grandes expoentes da literatura nacional, a exemplo de Mário de Andrade, de quem tornou-se amigo, auxiliando-o em suas pesquisas sobre folclore nacional, sendo, ao lado de Câmara Cascudo, um dos responsáveis pela vinda daquele ilustre escritor ao Rio Grande do Norte, em 1928.
Em 1927, Antônio Bento de Araújo Lima já encontrava-se estabelecido na capital potiguar. Naquele ano, ingressando na política, elegeu-se deputado estadual. Na Assembléia Legislativa, participou do grupo de parlamentares, que subscreveram a emenda à Constituição Estadual, que instituiu o voto feminino, numa iniciativa pioneira em todo o país. Reeleito deputado para a legislatura de 1930-1932, teve seu mandato prejudicado pela Revolução, eclodida no país em princípios de outubro de 1930. E, em conseqüência daquele movimento, teve que ausentar-se do Brasil, embarcando para Europa, na companhia de Juvenal Lamartine e outros simpatizantes do regime deposto.
Na Europa, Antônio Bento travou conhecimento com as maiores expressões do mundo artístico-cultural da época, fato que permitiu o enriquecimento de seu espírito e intelecto. Regressando ao Brasil, fixou-se no Rio de Janeiro, onde participou da fundação do ‘Diário de Notícias’ e nele atuou até 1932, quando ingressou no serviço público, como funcionário do Ministério do Trabalho. Em 1940, foi designado para ocupar o cargo de Procurador da Justiça Regional do Trabalho. Posteriormente, ascendeu a Procurador de primeira categoria, do Ministério Público da União.
Jornalista da melhor escol, nunca abandonou sua atividade. De 1934 a 1965, trabalhou no ‘Diário Carioca’ e naquele organismo da imprensa carioca foi editor de política e comentarista dos eventos da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, a convite de Carlos Lacerda, passou a escrever uma coluna sobre artes visuais, o que lhe credenciou a participar de um congresso preparatório para criação da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), realizado em 1948, na Europa, sob os auspícios da UNESCO.
Anos mais tarde, tornou-se presidente da seção brasileira da AICA e diretor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Simpatizante da arte, acompanhou durante toda sua existência as mais variadas modificações nas propostas artísticas e em seus resultados”, tendo, inclusive, participado da fundação do Museu de Arte Moderna, naquela cidade. De 1966 a 1970, escreveu para as páginas do jornal ‘Última Hora’, onde mantinha uma coluna sobre música e artes visuais. Crítico de artes dos mais conceituados do país, participou de três bienais, realizadas em Paris e integrou o corpo de jurados das Bienais Internacionais de São Paulo e Veneza, do Salão Nacional de Arte Moderna e da Comissão Nacional de Artes Plásticas (1978-1980). Esta última, patrocinada pela FUNARTE.
Homem culto, Antônio Bento publicou vários livros de crítica, deixando, entre outras obras: ‘Abstração na Arte dos Índios Brasileiros’, ‘Sérgio Telles’, ‘Ismael Nery’, ‘Manet no Brasil’, ‘Milton Dacosta’ e ‘Portinari’. Este último, considerado uma obra de arte. Em 1987, aos 85 anos, publicou ‘Contos Hiper-Realistas’, que reúne contos baseados em fatos reais. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1988, aos oitenta e seis anos de idade. Cinco anos mais tarde, o Banco HKB, patrocinou a publicação de seu livro ‘Poesias, Ponteios, Toadas, Cordel’. E, em sessão solene, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, comemorou o centenário de nascimento, desse grande intelectual nordestino, que projetou-se internacionalmente, sem, jamais, esquecer suas origens.

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