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domingo, 9 de outubro de 2011

ANTÔNIO DOS SANTOS CABRAL

O SEGUNDO BISPO DO RIO GRANDE DO NORTE

José Ozildo dos Santos


D
om Antônio dos Santos Cabral foi o segundo bispo do Rio Grande do Norte. Sergipano, nasceu no dia 8 de outubro de 1884, em Propriá, sendo filho do casal Antônio dos Santos Cabral e Amélia da Glória Cabral. Naquela cidade, iniciou o antigo curso preparatório, que foi concluído em Penedo, Estado de Alagoas.
Vocacionado para o sacerdócio, aos 2 de fevereiro de 1899, ingressou no Seminário de Santa Tereza, em Salvador-BA, recebendo a tonsura clerical aos 28 de outubro de 1904, seguida das ordens menores, a 1º de novembro de 1905. Um ano depois, Dom Jerônimo Tomé da Silva, Arcebispo Primaz, conferiu-lhe o subdiaconato e o diaconato, ordenando-lhe sacerdote a 1º de novembro de 1907.
Na capela do Seminário de Santa Tereza, celebrou sua primeira missa, dois dias após a sua ordenação. E, “era ainda tonsurado, quando pregou em Propriá o seu primeiro sermão em novembro de 1904 na festa de Santa Cecília. Depois de ordenado, regressou à cidade natal, onde cantou em 24 de novembro de 1907 a primeira missa na mesma igreja matriz em que foi batizado”.

DOM ANTONIO DOS SANTOS CABRAL

Volvendo à sua terra natal, em janeiro de 1908 tornou-se coadjutor da Matriz local, passando a auxiliar o cônego Rosa Passos, a quem, por ter falecido, sucedeu na direção da freguesia a 17 de março do mesmo ano.
Sacerdote virtuoso, com zelo de pasto e pároco, a 4 de agosto de 1912 foi distinguido com o título de cônego da Catedral de Aracajú. E, mais tarde, foi agraciado com o título de Monsenhor Camareiro do Papa Bento XV, em janeiro de 1914, por seus relevantes serviços prestados à Igreja Católica de Sergipe.
Atuante em sua paróquia, “incrementou, de modo surpreendente a vida eucarística, empenhado em propagar a ‘comunhão freqüente’, organizou diversas obras e associações: a Pia Unia das Filhas de Maria, três centros do Apostolado da Oração, oito Conferências Vicentinas, uma Escola Paroquial, o Colégio Feminino Nossa Senhora das Graças com escola anexa para meninas pobres, o Hospital Paroquial de São Vicente de Paulo”.
Em 1911, quando da sagração de dom José Tomás Gomes da Silva, ocorrida em 19 de novembro, foi escolhido para representar o clero sergipano na referida solenidade.  Por duas vezes foi nomeado bispo de Natal. Mas, para a surpresa de muitos, rejeitou ambas nomeações, em abril de 1916 e em junho de 1917, respectivamente. Pois, “reverenciado pelos fiéis da sua freguesia sentia-se feliz em promover o bem da Igreja e de seus paroquianos por atos de religião e caridade”.
Regia ainda a freguesia de Propriá, quando no dia 1º de setembro de 1917, foi novamente nomeado Bispo da Diocese de Natal, pelo Papa Bento XV, através da Bula “Commissum Humilitati nostrae”, em substituição a dom Joaquim Antonio de Almeida, primeiro bispo daquela diocese.

DOM ANTONIO DOS SANTOS CABRAL

Sua sagração episcopal ocorreu, na Catedral de São Sebastião, no Rio de Janeiro, em solenidade realizada no dia 14 de abril do ano seguinte, num domingo, tendo como sagrante, o Cardeal Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, arcebispo do Rio de Janeiro, auxiliado por Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra (bispo de Olinda) e Dom Cláudio Ponce de Leon, bispo resignatário de Porto Alegre e titular de Anazarba.
Dom Antônio empossou na Diocese de Natal, às 9:00 horas da manhã do dia 30 de maio de 1818, em cerimônia realizada na Catedral de Nossa Senhora da Apresentação, da qual, participaram várias autoridades civis, militares e eclesiásticas.
Registrando para a posteridade esse grande fato da história eclesiástica do Rio Grande do Norte, assim noticiou um jornal da época:
“A cerimônia da posse de d. Antônio Cabral, realizada ontem depois das nove horas, foi um acontecimento raro, no meio católico natalense.
A Catedral, quando s. Excia. Revdma. Ali deu entrada, acompanhado de vários sacerdotes, apresentava uma aspecto vetusto a que davam maior realce a profusão de luzes e de flores e festões artisticamente dispostos pelas arcadas e tribunas repletas de famílias da mais alta distinção.
No altar-mor, notava-se a presença, em lugar de destaque, do Desembargador Ferreira chaves, governador do Estado, acompanhado de suas casas civil e militar, e de outras autoridades militares e civis e de vários cavalheiros.
O ato foi iniciado com a leitura, pelo cônego Estevão Dantas, das Letras Apostólicas, nas quais consta o decreto do Vaticano nomeando d. Antônio dos Santos Cabral, bispo da Diocese de Natal.
Em seguida foi S. Excia Revdma. Empossado pelo Exmo. Monsenhor Alfredo Pegado, vigário geral da Diocese, perante o Exmo. Monsenhor Sabino Coelho, representante de S. Excia. Revdma. D. Adauto Aurélio de Miranda Henriques, arcebispo metropolitano da Paraíba e administrador apostólico da Diocese de natal, assinado o respectivo termo”.
Após tomar posse, Dom Antônio dos Santos Cabral leu a sua ‘Carta Pastoral saudando sues diocesanos’, oportunidade em que dissertou sobre o mistério da presença real de Jesus na e sobre a vida eucarística, afirmando que “pela eucaristia vive Cristo em nós” (Per Eucharistiam vivta in nobis Christus), frase que posteriormente tornou-se o lema de seu brasão episcopal. Assim, “elevado à dignidade de príncipe da Igreja Católica, mais se afervorou no culto das coisas sagradas, intimamente compenetrado das múltiplas responsabilidades do episcopado sob sua jurisdição. Zeloso obreiro da vinha do Senhor, não somente obedecia aos deveres do ministério espiritual, como até se comprazia em tomar a defesa dos interesses materiais dos seus diocesanos, esforçando-se pelo restabelecimento da linha da navegação do Lloyd Brasileiro para os pequenos portos do Estado, como também pelo restabelecimento da Estrada de Ferro de Mossoró [...]”.
É oportuno registrar que dom Antônio “encontrou a diocese de Natal em precária condições financeiras e logo lhe organizou um patrimônio. Porém, deu maior destaque à formação do clero e da juventude em geral”.
Em seu governo diocesano, dom Antônio dos Santos Cabral promoveu várias realizações, sobressaindo-se a fundação do Seminário de São Pedro (15-02-1919), a criação da Congregação Mariana dos Moços (14-07-1918), a instituição das Conferências Vicentinas e a instalação Escola de Comércio, ocorrida a 8 de setembro de 1919, bem como o Instituto de Proteção às Moças Solteiras (1919), a instalação do Curso Comercial Feminino e do Círculo de Operárias Católicos em 1918, bem como a fundação da Sociedade Propagadora do Ensino Popular.
Prelado de grande valor, visitou todas as paróquias de sua diocese, fazendo-se sempre acompanhado por grande número de auxiliares, tendo ordenado três sacerdotes, criado as paróquias de Areia Branca (08-09-1919) e Parelhas (08-12-1920) e fundado diversas associações religiosas e trinta escolas paroquiais.
Verdadeiro exemplo de levita do Senhor, dom Antônio Cabral era “devotado à prática das virtudes cristãs e incansável na realização de boas obras”. Deve-se ainda à sua iniciativa o Dia da Boa Imprensa, instituído em 18 de janeiro de 1919, o ‘Boletim de Natal’, órgão oficial da Diocese fundado em março de 1919, o ‘Pão de S. Antonio’, fundado em 13 de junho de 1920, além dos periódicos ‘A Palavra’ (1921) e ‘Fé e Luz’ (1922), bem como a ‘Comissão Central das Obras da Nova Catedral’, organizada em 27 do mesmo mês.
Considerado “a encarnação perfeita do sacerdote moderno, pela compreensão dos deveres sociais aliados às funções da religião católica, prestando relevantes serviços à população do estado, esclarecendo-a e educando-a na moral”, Dom Antônio em Natal, “atuou ainda na pastoral operária, criando um círculo de operários católicos (1918), uma escola e recreatório para operárias”.
Em Natal, Dom Antônio Cabral permaneceu até finais de 1921. Sua missão em solo potiguar terminou “por força de um ato emanado da Santa Sé, facultando-lhe o ensejo de desenvolver em outro Estado as qualidades criadoras das mais úteis iniciativas, com que o dotou a natureza. S. S. o Papa Benedito XV, conhecedor das revelações do seu amor ao trabalho e eminente espírito organizador, reunido o Consistório em Roma a 21 de novembro de 1921,o transferiu para a nova diocese de Belo Horizonte [...].
Na Diocese de Belo Horizonte, dom Antônio tomou posse em suas novas funções no dia 30 de abril do ano seguinte. Na oportunidade, “foi saudado pelo Dr. Lúcio dos Santos, em nome da cidade católica de Belo Horizonte, expressando-lhe sentimentos de alegria, obediência, fidelidade, virtudes próprias do povo mineiro. Após o discurso de Dr. Lúcio, houve um imponente desfile de todas as associações da capital, com distintivos e estandartes, até à Igreja de São José, que foi catedral provisória, onde foi saudado pelo Dr. Mário de Lima, então diretor da Imprensa Oficial".




Banquete oferecido por Dom Antonio dos Santos Cabral ao Embaixador do Papa Dom Henrique Gasparri e arcebispos e bispos em Belo Horizonte (1923)
Anos mais tarde, com a elevação daquela diocese às honras de Província Eclesiástica, ascendeu à condição de Arcebispo Metropolitano, em 1º de fevereiro de 1924, tornando-se o primeiro sacerdote sergipano há ocupar tão alta dignidade. No entanto, somente recebeu o ‘Pálio’, no dia 30 de novembro daquele mesmo ano.
Em Belo Horizonte, dom Antônio passou a residir numa casa alugada e denominada Palacete Levindo Lopes, localizada na Rua Guajajaras, nº 329, no centro da capital mineira.  Na época, a diocese de Belo Horizonte praticamente não tinha bens. Contudo, como era um espírito empreendedor – caraterística quee já demonstrara no período que fora bispo de Natal – ‘arregaçou as mangas’ e começou a desenvolver uma grande campanha, visando formar um patrimônio para seu sólio.
Graças aos seus esforços, a diocese conseguiu adiquirir uma casarão na Rua Espírito Santo, onde passou a funcionar a Cúria. Em pouco tempo de bispado, dom Antônio criou várias paróquias, solidificando cada vez mais a sua diocese.
Em meados de 1925, o jovem arcebispo conseguiu comprar um novo imóvel localizado na Rua Rio Grande do Norte, onde passou a residir. Amplo e moderno, o referido prédio passou também a sediar o Seminário Coração Eucarístico de Jesus, uma das primeiras grandes realizações promovidas por esse grande guardião da fé cristã, no solo mineiro. Naquele mesmo ano, realizou uma visita ‘ad limina apostolorum’, oportunidade em que percorreu toda a Europa.
Espírito incansavel, em 1927, fundou o Ginásio Municipal Arquidiocesano, prestando serviço á formação e instrução da mocidade [de Belo Horizonte], e, em 1930, o ginásio Dom Helvécio, na cidade de Ponte Nova, para a instrução pública. Em Mariana, criou o Museu de Arte Sacra em 1926, consagrando-lhe o nome. Foi a segunda grande festa em Mariana, estando presentes o representante do Presidente da República, o encarregado de negócios da Santa Sé, mons, egídio Lari, ministros de Estado representados ainda o Exército e a Marinha”.
Dom Cabral adquiriu também a Vila Anchieta, que posteriormente foi dividida e vendia em lotes à população da capital mineira. E, com o dinheiro arrecadado comprou a Fazenda Pastinho, que anos mais tarde tornou-se o bairro Bela Vista, hoje denominado ‘Bairro Dom Cabral’, onde iniciou a construção do Seminário Eucarístico de Jesus. Parte desse seminário foi transformada na Universidade Católica de Minas Gerais, atual PUC Minas.
Após instalar a a universidade, Dom Cabral conseguiu adquirir um terreno na Praça da Liberdade, onde construiu o Palácio Cristo Rei e montou o Seminário Preparatório, localizado na Avenida Augusto de Lima, ambos na capital mineira. Dentre suas realizações destacam-se ainda a criação da Sociedade Mineira de Cultura, ocorrida em 26 de outubro de 1948.
Presidiu o Congresso Eucarístico Nacional, realizado na capital mineira.  Zeloso em suas funções, administrou aquela Arquidiocese até finais de maio de 1956, quando foi obrigado a renunciar o pálio arquidiocesano, por problemas de saúde.
Preso a uma cadeira de rodas, viveu seus últimos dias de vida, falecendo aos 15 de novembro de 1967, no Hospital São Lucas, em Belo Horizonte, após longos meses de sofrimentos. Seu corpo, foi sepultado no interior da Catedral de Nossa Senhora da Boa Viagem, na tarde do dia seguinte.
Na Arquidiocese de Belo Horizonte, foi substituído por Dom João Resende Costa. Por sua ações e realizações, “D. Cabral tornou-se uma referência obrigatória na história do catolicismo mineiro, dada sua liderança sobre o episcopado de Minas Gerais e o ‘reavivamento’ eclesial”.
Em suas pregações, lembrava que a Ação Católica era “indicada por Pio XI como a grande obra restauradora da sociedade moderna, capaz de conquistar os direitos de Deus, recristianizar o país, repor Jesus Cristo na família e na sociedade, restabelecer o princípio da autoridade, abrigar a nação das sedições e oferecer uma legislação cristã aos povos”.
De sua valiosa produção, ficou: ‘Carta Pastoral do bispo de Natal saudando os seus diocesanos’ e Carta Pastoral do 1º bispo de Belo Horizonte saudando os seus diocesanos’. Nessa última Carta, dom Antônio Cabral estudou os problemas da época e traçou o rumo da sua futura administração, afirmando que seu desejo de pastor era “vivamente dominado do veemente desejo de firmar e expandir o reinado de Jesus Cristo” e que seu rebanho deveria “estudar as normas de ação que a sabedoria da Igreja, pelo órgão augusto dos Pontífices” [...], “traça para a recristianização das novas gerações”.
Consciente de seu papel, ao longo de sua ação pastoral, denunciou a ignorância religiosa do povo brasileiro, mostrando a necessidade de uma doutrinação e “ao colocar o sacramento da Eucaristia como centro de seu programa pastoral, estabeleceu as articulações entre o princípio da unidade e o da autoridade”.  
Prelado doméstico, assistente ao Sólio Pontifício, nobre e conde romano, em Belo Horizonte, o nome de dom Antônio Cabral dos Santos é bastante, reverenciado. Ali, uma via importante via pública, um bairro (onde ficava o antigo Seminário Diocesano “Coração Eucarístico de Jesus”, e hoje, a Universidade Católica), leva o seu nome.
Verdadeiro pastor, sentiu a necessidade da criação da Diocese de Oliveira e não mediu esforços para isto. E, aos 20 de dezembro de 1941, viu seu sonho realizado quando o Papa Pio XII assinou a Bula Quo uberiores fructus, criando a Diocese de Oliveira, desmembrando-a da Arquidiocese de Belo Horizonte.
Homem de reconhecida cultura, dom Cabral participou do ato de fundação da Academina Sergipana de Letras, ocorrido em  1º de junho de 1929, oportunidade em que passou a ocupar a cadeira nº 5, que tem como patrono o jornalista e escritor Ivo do Prado Montes Pires da França. Falecendo, ali foi substituído pelo professor, advogado, historiógrafo e filosofo José Silvério Leite Fontes.
Em Belo Horizonte, fundou ‘O Diário’, considerado o mais antigo cotidiano brasileiro. Durante seu episcopado, “nas terras mineiras, a imprensa católica ocupava lugar central na manutenção do tradicionalismo católico”.
Em 1976, por iniciativa do Cardeal dom Serafim Fernandes de Araújo, Arcebispo Emérito de Belo Horizonte, à época, reitor da UCMG (atual PUC Minas), criou-se a Fundação Dom Cabral. A Fundação Dom Cabral, instituição que busca a capacitação gerencial de empresários, executivos e empresas, apresentando soluções educacionais orientadas para o mundo dos negócios.

Um comentário:

  1. Antonio Aragão Cabral (antonioaragaocabral@yahoo.com.br)29 de março de 2013 11:32

    Agradeço a José Ozildo dos Santos pela valiosa contribuição à minha árvore genealógica, na qual transcrevi dados biográficos de Dom Cabral, que foi primo do meu avô paterno. Agradeço também pelo resgate histórico desse filho ilustre da minha cidade natal, Propriá, estado de Sergipe.

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