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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

FLORES - PERNAMBUCO

CAFUNDÓ: O VALE DAS MIL E UMA MARAVILHAS

José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos
Almair de Albuquerque Fernandes

O Vale do Cafundó é a área do município de Flores-PE, que possui o maior número de atrativos naturais. São inúmeros caldeirões, furnas, montes, picos, serras atípicas, paredões, canyons, olhos d’água, etc., etc., etc. No referido vale o visitante tem a impressão que voltou no tempo, à época do paleolítico. Rochas resultantes de transformações vulcânicas contornam toda a paisagem do imenso vale que corta o município em vários sentidos, assumindo, em alguns pontos, outras denominações.

 
Aspectos da cobertura rochosa sobre grande parte do solo, no Sítio Cafundó

Quem chega pela primeira vez ao Vale do Cafundó não pode deixar de se surpreender. Ali, onde as rochas dão o tom da paisagem, o tempo esculpiu com paciência um grande universo de formas e cores, um espetáculo para os sentidos e um convite à reflexão num ambiente de pura energia. Com sítios arqueológicos e canyons que testemunham o passado, o lugar é hoje um dos mais belos santuários geológicos do Nordeste brasileiro, um espaço para a prática de esportes de aventura e um patrimônio histórico e natural de extrema importância científica.

Registro da paisagem ao longo da principal via de acesso ao Sítio Cafundó 

O acesso até o Vale das Mil e Uma Maravilhas é fácil e não oferece obstáculos. Saindo do Distrito de Fátima, segue-se por uma estrada vicinal que passa inicialmente pela comunidade São Benedito. Antes, porém, já é possível visualizar as milhares de formações rochosas que parecem brotar umas sobre as outras.
A meio caminho, um ponto distante 7 Km do distrito de Fátima, o visitante pode deixar a estrada e entrar numa pequena porteira, que dá acesso à residência de dona Maria do Carmo. Poucos metros dali, encontramos os primeiros caldeirões do Cafundó. São cavidades naturais esculpidas na rocha bruta com profundidade, formatos e tamanhos diversos. Tais construções naturais além de constituírem um belo atrativo, servem como depósitos para a captação das águas das chuvas, que são utilizadas pelos moradores locais.
Aspectos do primeiro caldeirão (tanque de pedra) do Cafundó
Esse caldeirão possui uma particularidade. Quando cheio, sangra para o Grande Canyon, que se projeta em sua encosta, atingindo uma altura superior a cem metros.

Canyon do Cafundó

Após contemplar o Grande Canyon, retornando à estrada e seguindo em frente, chega-se até a residência do senhor Ernesto Henrique de Lima. Ali, transpondo-se uma pequena portueira localizada num ponto definidos pelas coordenadas 37º 58’ 83” S e 37º 44’ 30” W, chega-se ao leito do Riacho do Cafundó. Depois do referido riacho, a trilha se ramifica: para a esquerda, segue para outros caldeirões, e, para direita, nos leva até a Pedra da Tartaruga.

 
 Aspectos do maior caldeirão do Cafundó

O caldeirão da propriedade de ‘seu’Ernesto é o maior do Vale do Cafundó. Possui mais de 15 m de extensão por 8,5 m de largura. Sua profundidade máxima é de 7,8 m. Esse atrativo é dividido ao meio por uma longa ponte natural de pedra, que lhe dá uma beleza incomparável. Numa de suas extremidades, construiu-se uma série de degraus de cimento, que permite o acesso até a base do referido atrativo.
Durante o período chuvoso, o atrativo em descrição fica praticamente cheio pelas águas que escorrem pelas pedras em declive. No Cafundó, a água que escorre sobre as pedras, cava na rocha seu próprio caminho e desce pelas encostas enchendo os caldeirões, reservatórios naturais que são utilizados pela população local e por animais.

Caminho das águas sobre as rochas, no Sítio Cafundó

Retomando a trilha inicial, seguindo-se pela direita, chega-se à Pedra da Tartaruga, que fica a pouco mais de trezentos metros da porteira da entrada, num local definido pelas coordenadas 07º 58’ 91”S e 37º 44’ 35” W. A Pedra da Tartaruga do Cafundó é um bloco rochoso de aproximadamente 2,5 m de altura, em formato oval, com um diâmetro de pouco mais de 1,80 m. A referida pedra está numa pequena elevação, separada do Riacho do Cafundó por uma estreita área de plantação de cultura de subsistência. Formação atípica, coberta parcialmente por fungos, tal atrativo apresenta-se em prefeito estado de conservação.

Pedra da Tartaruga do Sítio Cafundó

Deixando para traz a Pedra da Tartaruga e seguindo em direção ao leito do Riacho, após uma pequena descida, deparamos com um imenso bloco de pedra, em declive, formando em sua base uma grande fenda, ao mesmo tempo, que com outras rochas laterais, forma uma galeria, por onde o referido curso d’água abre caminho.
Formações rochosas do Vale do Cafundó

Nas encostas do imenso salão, é possível encontrar vários pontos contendo pinturas rupestres. São representações em vermelho, que ora apresentam-se bastante visíveis, e, ora não possuem visibilidade, tornando-se impossível definir os contornos dos referidos grafismos.

Pinturas rupestres do Sítio Cafundó

Um conjunto de mãos humanas dispostas na horizontal constitui os caracteres mais visíveis nesse sítio arqueológicos, onde somente existem pinturas rupestres. Ao todo, são quatro mãos, de formatos e tamanhos variados. Logo abaixo, vê-se um conjunto de linhas ramificadas. Noutro ponto do referido paredão, aparecem novos caracteres. São representações geométricas de difícil interpretação. Mais abaixo, um conjunto de pontos em circulo domina a paisagem, escondendo consigo os mistérios do Vale do Cafundó.
Deixando à propriedade de ‘seu’ Ernesto e seguindo em frente, chega-se à casa de ‘Zequinha Marinheiro’, espécie de figura lendária que nasceu e viveu por muitos anos numa casa construída sob uma grande pedra, no Vale do Canfudó. Ali, o visitante encontra inúmeros outros calderões e ver de perto rochas com formatos ‘esquisitos’ e o mesmo tempo, belos.
Grande parte do solo dessa região é coberta por uma fina camada rochosa, que facilmente pode ser removida. Parece, que por ali, correu o magna de um vulcão, modificando o aspecto inicial do solo, alterando de forma significativa sua cama superficial.
Saindo da casa de ‘seu’ Zequinha Marinheiro, indo novamente em direção ao leito do Riacho do Cafundó, novos atrativos são encontrados. São formações que recebem o nome de ‘pão’, por parte dos moradores locais, por lembrarem o ‘Pão de Açúcar’, do Rio de Janeiro. Contudo, em alguns pontos, novas formas se elevam, contrariando a paisagem local. São picos, montes e torres.
Caminhando pelo Vale do Cafundó, após cruzar uma grande várzea, que se forma ao longo do Riacho que dá nome a localidade, o visitante começa a visualizar, a distancia, contrastando com os paredões rochosos e suas encostas, uma construção atípica, que aos poucos vai ganhando forma. Trata-se da lendária ‘Casa de Pedra do Cafundó’, solidamente construída no século XIX, aproveitando uma fenda que existe numa encosta.

 Casa de Pedra do Cafundó, construída no final do século XIX

Durante o período chuvoso, o referido atrativo fica quase que totalmente encoberto pela vegetação que ganha um verde exuberante. A Casa de Pedra do Cafundó vem resistindo ao tempo. Suas solidas paredes, por mais de um século, se mantém erguidas, testemunhando o passado e contando nossa história. Em seu interior, além da sala e da cozinha, existem três quartos, que foram cuidadosamente projetados.
Três gerações de uma mesma família, ali viveram entre as décadas de 1890 e 1970, sendo o senhor Zequinha Marinheiro – que ali nasceu – neto do ‘construtor’ da Casa de Pedra do Cafundó. A mais antiga referência bibliográfica sobre este atrativo data do início do século passado e ilustra um relatório da antiga IFOCS, elaborado em 1911.
Do batente da famosa Casa de Pedra, o visitante olhando em sua volta, pode contemplar diversos atrativos naturais. A Pedra do Chapéu é um destes atrativos. Outro, é um paredão que parece dá uma volta por todo o vale, ora transformando-se em grandes serras, ora reduzindo-se a pequenas elevações.
Retomando a trilha inicial e seguindo-se pela esquerda, chega-se ao Covoado, uma localidade inserida dentro do Vale do Cafundó, que também possui inúmeros atrativos e guarda seus segredos. O primeiro atrativo que se registra nessa localidade é a Pedra da Esfinge, que se destaca no alto de um penhasco a uma altura de aproximadamente 80 metros.

Pedra da Esfinge no Sítio Cafundó

Vista de longe e dependendo do ângulo, apresenta um aspecto que faz lembrar a histórica Esfinge do Egito, com sua opulência e beleza natural, sempre fitando o Vale do Cafundó, que guarda inúmeros ‘segredos’ e ‘mistérios’.
O segundo atrativo mais significativo do Covoado é a ‘Gruta de Pedra’, encravada nas encostas rochosas, poucos metros após a Pedra da Esfinge. Durante o período quando a vegetação cresce e surge um novo verde, o referido atrativo fica totalmente encoberto. Ele apresenta um salão de aproximadamente 10m², em sua base, na qual, em seu ponto extremo, para o alto, sobrelevam-se três novos andares, que podem ser facilmente escalados, até o teto, onde existe uma outra abertura na rocha, que se projeta acima da entrada principal, cerca de 9 metros.

Aspectos da Gruta de Pedra do Covoado

Deixando para trás a Gruta de Pedra e retomando o curso do Riacho do Cafundó onde começa a se formar um novo Canyon, o visitante avista logo de início uma segunda esfinge, uma formação rochosa que lembra a cabeça de um leão: uma ‘Sentinela de Pedra’, guardando a entrada de mais um atrativo do Covoado, no Vale do Cafundó.


Aspectos da Esfinge do Covoado, localizada no início do Canyon

A partir daquele ponto, inicia-se um imenso paredão, que atinge altura superior a 150 metros. Por entre a gigantesca garganta de pedra, corre o Riacho do Cafundó que vai aumentado de volume, à medida que vai recebendo as águas que escorrem das encostas.


  
Aspectos dos Paredões do Covoado

Nessa parte do Covoado, protegida pelas muralhas de pedras, encontramos espécimes da vegetação nativa, que não registradas em outros locais do município. São, principalmente, bromélias de várias espécies, que necessitam ser classificadas para que a população local e os visitantes possam sobre elas serem informados.
Inúmeras pequenas cavidades se formam nas rochas que compõem os imensos paredões do Canyon do Covoado, servindo de abrigo natural para os animais silvestres que habitam a região, principalmente para as abelhas, morcegos, marimbondos, mocós, etc. Em alguns locais, existem cavidades tão amplas, que, possivelmente, serviram para a ocupação humana, no passado. No entanto, nesses locais, até o presente, não foram encontrados vestígios que confirme tal hipótese.
Finalizando a caminhada pelo Vale do Cafundó, chega-se à Garganta do Covoado, um caminho milenar aberto por entre as pedras, que serve para o escoamento das águas que descem das encostas e alimentam o Riacho do Cafundó.
  
Início da Garganta do Covoado 

A Garganta do Covoado se prolonga por mais de dez metros em declive. Ela serve de ligação entre o Sítio Covoado e a estrada vicinal, que dá acesso ao Vale do Cafundó. Os paredões rochosos que forma a ‘Garganta do Covoado’, apresenta um formato que lembra um trapézio, visto de lado, com uma altura máxima de 6 a 7 metros.
Calçada, de forma natural, a referida passagem possui em sua base 80 cm em seu ponto mínimo e vai lentamente se abrindo, atingido em seu ponto máximo 1,20 m. Marcas nos paredões, em diversas alturas, registram as enxurradas que por ali passaram, ao longo de centenas de anos.
No seu final, à direita, o visitante pode ainda contemplar a Pedra do Boné, formação rochosa que se eleva do solo por mais de 10 metros, servindo de coordenada geográfica, assinalando o final da trilha que percorre todo o VALE DO CAFUNDÓ.
O Vale das Mil e Uma Maravilhas guarda outros atrativos que são um convite ao visitante. Cerca de quatro quilômetros após a ‘Casa de Pedra’, descrita anteriormente, no topo de uma pequena serra, encontramos um espaço antigo de ocupação humana, que merece ser relacionado como um ponto digno de visitação. Trata-se da antiga Casa de Farinha do Cafundó, que também é citada no Relatório da IFOCS, elaborado em 1911 e na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, editada em 1958, pelo IBGE.

Prensa da antiga Casa de Farinha, Sítio Cafundó -Flores-PE

Forno da antiga Casa de Farinha do Sítio Cafundó

Hoje, pouco resta da grande Casa de Farinha do Cafundó. Contudo, o tempo ainda não conseguiu destruir a antiga e secular prensa e o velho forno de torrar farinha. Lá, estão sobrevivendo ao tempo e às intempéries. O referido forno ocupa parte de uma grande fenda. Ao seu lado, num segundo plano, encontramos a prensa. Pelo chão, velhos equipamentos e restos da construção ainda podem ser encontrados.
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Fotos: Rosélia Santos.
Guia: João José da Cruz Neto (Flores-PE)

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