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domingo, 25 de dezembro de 2011

VITTORIA COLONNA

A MUSA DE MICHELANGELO



José Ozildo dos Santos

I
nteligência marcante, Vittoria Colonna foi uma das maiores expressões da poesia da Itália do século XVI, ocupando ainda hoje um lugar de destaque no quadro da poesia feminina daquele país. Considerada a escritora mais renomada e bem sucedida de sua época, ela foi amplamente admirada por seus pares e sua produção literária passou por várias edições ainda no século XVI, demonstrando a sua vanguarda na produção literária das mulheres, na Renascença.

Esplêndido retrato de Vittoria Colonna, pintado
por Sebastiano del Piombo, em 1520

Vittoria Colonna nasceu em Marino, Itália, em abril de 1490 (algumas fontes trazem 1492). Filha de Fabrízio Colonna (senhor de vários feudos e condestável do reino de Nápoles) e de Agnesina di Montefeltro, era neta de Federigo da Montefeltro, o primeiro duque de Urbino, e, também sobrinha dos Duques de Urbino, Guidubaldo Montefeltro e Gonzaga Elisabetta, figuras emblemáticas no 'Cortegiano Baldassarre Castiglione', a obra prima literária da cultura cortês italiana.
Era ainda adolescente - quando numa manobra política que estabeleceu uma aliança entre os Colonna e o trono espanhol do rei Fernando D'Aragona - foi prometida em casamento a Francesco Ferrante D'Avalos, nobre napolitano de origem espanhola, que mais tarde tornou-se um dos principais generais do Imperador Carlos V, tendo sido condecorado por suas várias vitórias.
O referido casamento ocorreu no dia 27 de dezembro de 1509, no Castelo de Aragonês, na Ilha de Ischia, contando com a presença das melhores famílias da nobreza napolitana. Logo em seguida ao casamento, Francesco Ferrante recebeu o título de Marquês de Pescara. E, deixando a jovem noiva na responsabilidade do pai Fabrizio Colonna, seguiu para lutar sob a bandeira espanhola na guerra contra Fernando, o Católico, rei da França.


Vittoria Colonna, por Sebastiano del Piombo,
cerca de 1520

Quase esquecida pelo marido, que ansiava mais a fama do que o seu amor, Vittoria descreve sua dor em uma carta para Pescara, escrita em rima, contendo 37 estrofes. Guardada nos arquivo da família, esta carta, escrita três anos após o casamento, somente veio a público, em 1840, quando Visconti acrescentou-a a outros poemas em sua edição revista dos escritos de Vittoria. A referida carta começa assim:

Eccelso Mio Signor! Questa ti scrivo
Per te narrar tra quante dubbie voglie,
Fra quanti aspri martir, dogliosa io vivo!"

Com esses versos, Colonna conclui sua triste carta:

"Tu, vivi lieto, e non hai doglia alcuna:
Che pensando di fama il nuovo acquisto,
Non curi farmi del tuo amor digiuna.
Ma, io, con volto disdegnoso e tristo,
Serbo il tuo letto abbandonato e solo,
Tenendo con la speme il dolor misto,
col vostro gioir tempro il mio duolo!"

Em Ischia, esquecida pelo marido, Vittoria viveu martírios amargos e dias triste. E, enquanto seu marido lutava para adquirir fama, ela vivem 'seu jejum de amor', como narra em sua carta íntima, misturando dor e esperanças.
Com brilho, o Marquês de Pescara participou da Batalha de Pavia, na qual saiu gravemente ferido. Durante sua recuperação, ocorreu algo que deixou-lhe insatisfeito com Carlos V, tendo sido sondado por Morone, o antigo ministro dos Sforza, para participar de uma conspiração idealizada por outros príncipes italianos, sendo-lhe prometido o reino de Nápoles como recompensa por sua ajuda na execução do enredo.

Vittoria Colonna, frontispício do livro 'Rime e lettere' (1860)

No entanto, o plano chegou ao conhecimento do Imperador, que designou-o para prender o próprio Morone. Relata a história, que Vittoria Colonna fez protestos nesta ocasião, na esperança de manter o marido dentro dos limites de sua lealdade ao Imperador, mas não foi ouvida.
Entretanto, os ferimentos que recebidos na batalha de Pavia fizeram declinar a saúde do ilustre comandante "e no decorrer do ano 1525 ele se afundou sob as suas consequências, deixando para trás lhe um nome, juntamente com a mais alta reputação militar", falecendo aos 36 anos de idade.

Vittoria Colonna, vista por Michelangelo

Vittoria era apaixonada pelo marido e chorou a sua morte em poemas considerados admiráveis. E, durante sete anos, desistiu de todo, tendo, inclusive, sido pressionada a aceitar uma das muitas ofertas de casamento, que recebeu.
Viúva e rica, passou a dedicar-se inteiramente à religião e à literatura, sendo frequentemente encontrada em vários mosteiros, tanto em Roma quanto em Viterbo, embora possuísse residência em Ischia e em Nápoles. Sua dedicação à poesia sagrada, fez projetar uma peregrinação a Jerusalém, mas o marquês Del Vasto, primo e herdeiro de seu falecido marido, opôs-se ao seu plano.

Vittoria Colonna, Retrato de Muziano

Contudo, deixando Nápoles, Vittoria Colonna realizou uma excursão pelo norte da Itália, tendo visitado Lucca e Ferrara. E, posteriormente, fixou residência definitiva em Roma, onde, em pouco tempo, tornou-se o centro de tudo o que era mais nobre na vida intelectual e espiritual de seu tempo.
Possuidora um gênio peculiar para a amizade, manteve laços de amizades com grandes nomes da intelectualidade de sua época, a exemplo de Ghiberti, Contarini, Morone Giovanni e um grande grupo de homens e mulheres, que trabalhavam em prol de uma reforma interna na Igreja.
Embora tivesse um grande número de admiradores fervorosos, entre os quais, destacava-se o cardeal Pietro Bembo, o ditador literatura da época, Vittoria Colona voltou sua atenção para o mestre veneziano Michelangelo, protagonista da reforma religiosa que gravitava em torno Cardeal Reginald Pole. E, muitas vezes deixou lugares, a exemplo de Viterbo e outros, onde tinha ido para o lazer ou para passar o verão, e vinha  à Roma, apenas para o propósito de ver Michelangelo, tornando-se o romance de sua vida.


Vittoria Colonna, Retrato de Maria Bandini Buti

Para alguns biográfos, sua relação com Michelangelo não ultrapassou as raias do amor platônico. Ela própria definiu os seus contatos com o grande artista como sendo "amizade estável e firmíssimo afeto". 
Contudo, Vittoria Colonna tornou o amor possível na vida de Michelangelo. E ninguém melhor do que Teófilo Braga viu isto quando em 1870, assim afirmou:

Vittoria Colonna! que alma para dal-a a tamanho artista, Vuom di quatralme. Como a poetisa saberia inspirar o poeta, arrebatar com a melancholia de sua saudade o pintor, dar a vida toda ao estatuario para animar o marmore, revelar as perfeições da linha ao architecto! Vittoria Colonna fala de amor como Dyotima, a estrangeira de Mantinea abrasada pelo sol do christianismo. Os seus sonetos são um dialogo apaixonado de Platão; Miguelangelo deixa-se vencer, como aquelle poeta da antiguidade que se deixara vencer também por Corina. Ella possue-se do amor do céo, foge-lhe na suspensão de um extasis amoroso. O artista ao vêr passar o saimento d'aquella por quem fora poeta, resumiu todo o seu amor na vaga aspiração d'estas palavras: "Não ter eu beijado aquella bocca".

Ascanio Condivi, em sua 'Vita di Michelagnolo Buonarroti', publicada inicialmente em 1553, focalizou a relação que se desenvolveu entre Michelangelo e Vittoria Colonna, no final da década de 1530 e início de 1540, período, que coincidiu com a fase difícil da vida daquele grande artista, envolvendo a execução do 'Juízo Final' e os resultados atormentados da longa história do monumento fúnebre para o Papa Júlio II.
Acredita-se que foi o diálogo privado e intelectual entre aquele grande artista e Vittoria Colonna, deu-se no período em que Michelangelo realizou a mais extraordinária de suas obras sacras. E é também provável que o primeiro encontro entre os dois tenha ocorrido em idos de 1537. No entanto, a referida relação somente se estreitou por volta do ano de 1542, quando Colonna era viúva há dezessete anos e Michelangelo, um homem maduro.

Vittoria Colonna, representando a Virgem Maria,
num retrato de Michelangelo

Suas conversas giravam em torno da arte e da religião. Mas, Michelangelo fez da Marquesa de Pescara a sua musa, tendo escrito para ela várias poesias e produzido alguns desenhos. Em resposta, Vittoria dedicou-lhe uma série de poemas.
Num livro publicado por Walter Pater e Donald L Hill, em 1980, sob o título 'The Renaissance: Studies in Art and Poetry', os referidos autores compararam a relação entre Michelangelo e Vittoria Colonna, à experiência vivida por Dante e Beatriz.
Outro renomado biógrafo, que teceu comentário em torno dessa relação, foi Abigail Brundin (Vittoria Colonna, University of Chicago Library, 2005), afirmando que as poesias dedicadas por Vittoria ao ilustre amigo, "revelam um esforço de lidar com a responsabilidade pela sua vida interior e de compartilhar os frutos do labor no espírito de uma comunhão evangélica com alguém que passava pelas mesmas dúvidas e agitações de alma".
Ainda na decada de 1530, Michelangelo deu para Vittoria três desenhos excepcionalmente famoso: 'a crucificação com Cristo vivo' (agora perdido, mas conhecido a partir do belos desenhos preparatórios proveniente do Museu Britânico e do Louvre), a 'Pietá' (uma reflexão sobre a figura de Cristo que mais uma vez se conecta com um dos aspectos cruciais do diálogo entre o artista e Vittoria), e o 'Cristo e a Samaritana', sobre o qual se chegou até a atualidade um estudo parcial, escrito por Michelangelo.
Os primeiros anos da década de 1530 testemunharam o surgimento de Vittoria Colonna na cena literária italiana, sendo  consagrada por Ariosto em seu livro 'Orlando Furioso', publicado inicialmente em 1532.
Ao longo de sua carreira como poeta, Colonna escreveu 352 sonetos. Suas poesias, louvadas como impecáveis na época, fizeram dela a mais importante das continuadoras da tradição de Petrarca, em sua geração.
Espírito talentoso, a Marquesa de Pescara além de mediadora política respeitada, era uma reformadora religiosa. Em vida, teve seus méritos amplamente reconhecidos. Entretanto, de forma indevida e maldosa, a historiografia posterior a retratou não como uma mulher de talentos múltiplos, mais como uma figura passiva, vivendo à sombra de grandes homens, com os quais compartilhou amizade e trabalhos, a exemplo de Michelangelo, conforme observa Abigail Brundin, em seu livro 'Vittoria Colonna and the spiritual poetics of the Italian Reformation'.
Espiritualista, defendendo sua capacidade de escrever sobre assuntos religiosas, Vittoria Colonna afirma em seu versos que "A poesia da oração e da fé revela/que as pessoas desejam fazer profundamente/sacrifícios abnegados e este anseio/é esculpido no núcleo do coração".
A Marquesa de Pescara atribuía uma grande significado à figura evangélica de Maria Madalena. E isto vem à luz em várias de suas iniciativas pessoas, entre as quais destaca-se a fundação, em Roma, de um refúgio para prostitutas.
Vittoria Colonna faleceu em Roma, no dia 25 de fevereiro de 1547. Ao seu lado, até os últimos momentos, Michelangelo esteve presente. Narra a história que ela morreu em seus braços e que ele, em lágrimas, beijava suas mãos sem cessar.

Michelangelo ao lado do leito de Vittoria Colonna

Conta Ascanio Condivi, que foi um dos primeiros biógrafos de Michelangelo, e, também seu discípulo em Roma, que o grande artista após a morte de sua musa, "passou um longo período transtornado, como se tivesse perdido a razão", mostrando-se arrependido por não tê-la beijado nos lábios. E, num de seus mais belos sonetos, Michelangelo "expressou sua tristeza e revolta, e disse que jamais a natureza fizera face tão bela".
Inteligência ímpar, Vittoria Colonna ainda na década de 1530, quando já era um nome reconhecido na literatura italiana, passou a participar das polêmicas em torno da justificação pela fé. No entanto, graças à sua amizade com o cardeal Reginald Pole - a quem declarou que devia a sua salvação - escapou das perseguições impostas pela Igreja Católica, não sendo acusada de ortodoxa.
Conta-se que seu último desejo era ser sepultada no Convento de Santana de Funari, em Roma. No entanto, o local exato onde repousam seus restos mortais é duvidoso. Acredita-se que tenham sido removidos para o cemitério de San Domenico, em Nápoles, onde repousam ao lado do Marquês de Pescara.
A verdade é que Vittoria Colonna foi maior como uma personalidade do que como poeta. Seu livro 'Rime', publicado em Bergamo, no ano de 1512, é essencialmente dedicado à glorificação do seu marido, o jovem Marquês de Pescara. E, para alguns críticos da literatura, é um tanto monótono.
Anos mais tarde, sua poesia tornou-se profundamente religiosa. Em seu poema 'Trionfo di Cristo', é possível perceber a forte influência de Dante e Savonarola, bem como de Petrarca. Além de inúmeros sonetos, também foi preservado de sua autoria uma meditação em prosa sobre a 'Paixão de Cristo'.
Considerada uma das mulheres mais notáveis da Itália quinhentista, Vittoria Colonna publicou: Cartas (Florença, 1532), 'Rime' (Bergamo, 1512), 'Correspondência' (Londres, 1523). Posteriormente, estes livros foram reunidos em único volume, sob o título 'Rimas e cartas'.
Figura da maior grandeza na literatura italiana, Vittoria Colonna foi uma mulher quase divina. Sua beleza, seu talento e sua virtude, foram exaltados por seus contemporâneos. Em sua época, seu nome era sempre acompanhado por elogios brilhantes e expressões de respeito sincero, pois em vida ela foi 'um modelo de matrona italiana'.


BIBLIOGRAFIA

BRAGA, Theophilo. Estudos da Edade Media: Philosophia da litteratura. Porto: Livraria Internacional, 1870.

BRUNDIN, Abigail. Vittoria Colonna (1490-1547). Chicago, USA: University of Chicago Library, 2005.

______.  Vittoria Colonna and the spiritual poetics of the Italian Reformation. Burlington, USA: Ashgate Publishing, Ltd., 2008.

CONDIVI, Ascanio. Vita di Michelagnolo Buonarroti pittore scultore architetto e gentiluomo fiorentino. Seconda edizione. Firenze: Caetano Albizzin, 1746.

MONTGOMERY, James; SHELLEY, Mary Wollstonecraft. The cabinet cyblopedia: Eminent Literary and Scientific Men of Italy, Spain, and Portugal. London: Longman, Rees, Orme, Brown, Green, & Longman, 1835.

PATER, Walter; HILL, Donald L. (ed). The Renaissance: Studies in art and poetry. Ewing, USA: University of California Press, 1980.

ROSCOE, Henry. Vittoria Colonna: her life and poems. London: Macmillan and co., 1868.

SERVADIO, Gaia. Renaissance woman. New York, USA: I. B. Tauris, 2005.

SOCIETY FOR THE DIFFUSION OF USEFUL KNOWLEDGE (Great Britain). The penny cyclopaedia. Londres: C. Knight, 1837. Volumes 7-8.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

PEDRO AMÉRICO:

O ESCRITOR

José Ozildo dos Santos

D
e certa forma, Pedro Américo foi a maior descoberta promovida pela naturalista Jacques Brunet, na Paraíba. Quando aquele francês chegou em Areia, no ano de 1853, surpreendeu-se com um jovem garoto, que possuía uma grande vocação para a pintura e notificou o fato ao conhecimento do governo imperial. Ao deixar Areia, Brunet levou consigo o jovem Pedro Américo, que embora tivesse pouco mais de 10 anos de idade, passou a ocupar o cargo de desenhista assistente da missão científica, viajando por o nordeste brasileiro, transportando-se em seguida para o Rio de Janeiro, onde ingressou no Colégio Pedro II e depois na Academia Imperial de Belas Artes (AIBA).  


Seu sucesso era tamanho, que foi notado até pelo imperador Dom Pedro II. Amante das artes, aquele monarca encarregou-se pessoalmente de providenciar sua transferência para Paris, concedendo-lhe, para tanto, uma bolsa de estudos.
Em 'Na cidade eterna', Pedro Américo apresenta-se como um romancista completo. Talvez, por ter sido grande demais na pintura, a sua obra literária ainda não tenha merecido a devida atenção. O referido livro traz como subtítulo 'Sonho de Juventude'.
Trata-se de um romance descritivo e psicológico, conforme rotula o próprio autor, acrescentando que "o romance psicológico é talvez, o mais difícil do gênero".  Nele, Pedro Américo analisa a alma de um artista em situações imaginárias, numa "tentativa de sondar o espírito e o coração humano".
Em 'O Holocausto', escrito e publicado em Roma, no ano de 1882, Pedro Américo faz um desabafo, numa carta-prefácio dirigida ao seu amigo Luís Guimarães Júnior, afirmando que "em quanto as paixões políticas corroem as inteligências eleitas e estragam quase tudo quanto em nosso país tem alguma beleza, vai o magnânimo coração brasileiro achando prêmios para todas as energias e prantos para todas as desgraças, menos para as grandes vocações artísticas, que lutam heroicamente e sucumbem, depois de alastrarem o solo de luzes e o umedecerem de lagrimas".
Pedro Américo era um homem extremamente ligado à sua terra natal. Mesmo vivendo na 'Cidade Eterna', não esquecia a sua exuberante cidade de Areia, 'escondida no pendor oriental da serra da Borborema'.
O drama narrado em 'O Holocausto', se desenvolve em Areia. E nele, Pedro Américo traz para a ficção, figuras que lembram personagens reais de sua própria cidade natal.  Escrito em português, o referido romance foi publicado em Florença, no ano de 1882.
O romancista não conseguia se separar do pintor. Até escrevendo, Pedro Américo conseguia pintar. Entre um espaço e outro, no romance 'O Holocausto' aquele paraibano ilustre, pintou diversos quadros que retratam sua terra natal.
Num determinado momento, registrou: "De continuo banhada pelos ventos irregulares das bandas do mar, que fica-lhe a mais de vinte léguas ao oriente, sob um céo transparente e de cor intensissima, cingida de um verdadeiro Éden de robusta vegetação, Arêas impressiona menos aos estrangeiros pelos seus habitantes, cujos costumes são simples e brandos, pelo seu clima temperado e saudável, pelos seus fructos succulentos e saborosos, do que pela formosura de suas mulheres, freqüentemente louras, pela sua tendência à elegância e ao progresso, e, principalmente, pela sua situação geológica, eminentemente própria para desenvolver a sensibilidade e a melancolia".
Pedro Américo era um provinciano autêntico. Em quase tudo que escreveu e publicou, a Paraíba ou a cidade de Areia, com suas 'estórias' e seu povo, se fazem presentes. Assim também foi em 'Amor D'esposo', uma espécie de narrativa histórica, publicada em Florença, no ano de 1886.
Nele, o autor novamente ilustra a narrativa com figuras humanas, cujos perfis foram criados a partir de personagem reais de sua querida cidade de Areia, indo buscar no passado a figura de seu avô, o velho Manoel de Cristo, com quem aprendeu música, informando que o mesmo "era um Pernambucano conhecido em toda a sua província natal, na província da Parahyba, nas do Rio Grande do Norte, do Ceará, e ainda em outras, pelo seu grande talento de compositor de musica sacra, pela sua coragem, pelas suas idéas adiantadas, pelos seus serviços á causa publica, pelas suas innumeras relações com os homens summos do paiz, por numerosos acontecimentos sociaes e políticos a que ligara o próprio nome, e, finalmente, por todos os dotes que exornavam a sua grande alma de artista e patriota".
Embora tenha saído ainda muito jovem da Paraíba, Pedro Américo carregava consigo as lembranças de sua terra. E, de forma imaginária, respirava o suave aroma do pendor oriental da serra da Borborema.
No entanto, este lado provinciano de Pedro Américo não é explorado por seus biógrafos. A justificativa para isto resume-se a pouca divulgação de sua obra literária, na atualidade.  Sem sombra dúvidas, uma reedição integral das obras literárias de Pedro Américo seria uma grande contribuição à literatura paraibana e preencheria algumas lacunas da vida desse magnífico filho da Borborema, dotado de altos predicados e de vasta cultura.
A verdade é que muito pouco se conhece de nossa produção literária do século XIX e até o momento, pouca também sido a atenção dada a mesma por parte dos organismos culturais do estado.
Em algumas páginas do livro 'Amor D'esposo', Pedro Américo deixa pequenas notas autobiográficas, assim o faz quando afirmou: "muitos dos meus companheiros de estudo, quer das Universidades da Sorbone e de Bruxelas, quer do Instituto de Mr. Ganot, ou ainda da Academia das Belas Artes de Paris, riam-se da exagerada pureza da minha alma, e, para se divertirem, apostavam que eu havia de acabar frade ou soprano da Capela Sixtina".
Pedro Américo não foi somente um gênio na pintura. Ele também possuía o dom da palavra limpa, do aticismo da linguagem. Falando ou escrevendo, ele também era um gênio.
Sua longa permanência na Europa, em país como França, Itália e Portugal, possibilitou-lhe o contato direto com renomados nomes da literatura e da filosofia universal do século XIX. E, mesmo caminhando pelas amplas ruas de Paris ou de Roma e conquistando aplausos em inúmeras exposições ou conferências, Pedro Américo continuou sendo um autêntico filho da Paraíba.
Talvez, tenha sido isto o que fez com seus conterrâneos lembrassem de seu nome, elegendo-o deputado à Assembléia Nacional Constituinte de 1891, onde também teve uma participação significativa, conforme pode-se constatar através da leitura de seus discursos parlamentares, publicados no Rio de Janeiro, em 1892.

sábado, 17 de dezembro de 2011

EMAS - PB

ASPECTOS HISTÓRICOS DO MUNICÍPIO
DE EMAS – PARAÍBA (II)

José Ozildo dos Santos

A origem da povoação, núcleo inicial da atual cidade de Emas, necessita de maiores esclarecimentos.
Em 1976, publicou-se a 'Enciclopédia dos Municípios Paraibanos', onde lê-se que "Joaquim Nunes de Gouveia, em 1917, lançou as sementes que mais tarde germinariam e formaria o povoado que seria transformado no progressista municípios de Emas (1)".
Esta informação vem sendo repetida nos últimos trinta e cinco anos, em todos os trabalhos produzidos e divulgados sobre Emas, sem um sustentáculo bibliográfico digno de confiança.  No entanto, trata-se de uma afirmação que necessita ser reavaliada.
A história provinciana revela que o núcleo inicial da atual cidade de Emas foi a 'Povoação de Várzea da Ema', parte integrante do antigo território do município de Piancó, sede da histórica Freguesia de Santo Antônio. As origens dessa povoação remontam ao século XIX e não ao ano de 1917. 
É importante ressaltar que já no século XIX existiam na região as condições propícias à criação de uma povoação. Na época, era comum instalar os núcleos de ocupação humana, próximos aos cursos d'água e assim ocorreu com a povoação Várzea da Ema: foi instalada às margens do Rio dos Porcos, servindo como ponto médio entre as Fazendas Campo Grande e Angicos, que se destacavam como importantes núcleos agropecuários em todo o sertão do Piancó.

Dicionário de Milliet, 1845

No 'Diccionario Geographico, Historico e Descriptivo do Imperio do Brazil', publicado por J. G. R. Milliet de Saint-Adolphe, em 1845, encontramos a primeira referência à Povoação de Várzea da Emas, quando lê-se: “Piancó: Villa da provincia de Parahiba, 100 legoas pouco mais ou menos a poente da cidade capital da província, e 12 ao sudoeste da Villa de Pombal, na comarca d’este nome. Foi largo tempo uma freguezia consideravel, cuja matriz tinha por padroeiro Santo Antonio. Seu termo, um dos mais férteis e ricos da província, pertencia ao districto de Pombal, e tinha em 1815 perto de 8.000 habitantes. No cabo de longas e reiteradas instancias dos moradores, por um decreto de 11 de novembro de 1831, foi esta freguezia condecorada com o título de Villa Constitucional de Santo Antônio de Piancó, assignalando-lhe o mesmo decreto por districto o próprio termo de sua freguezia, o qual encerra as povoações de Boa Vista, Boqueirao, Brejo da Cruz, Caiporas, Caissara, Canoa, Catolé, Catolé de Baixo, extremo, Formiga, Furado, Genipapo, Jabotá, Paó Ferrado, Pilar, Rancho do Povo, São Boaventura, São Lourenço, Umari e Varzea-da-Ema" (2).  
Com base no exposto, constata-se que as origens da Povoação de Várzea da Ema remontam à primeira metade do século XIX. No entanto, é necessário esclarecer que as antigas povoações eram estruturadas de acordo com as limitações da época: casas rústicas e taipa, uma pequena venda, capela simples com chão batido. À medida que essa povoação ia ganhando importância, tudo em sua volta ia mudando, surgindo os primeiros indícios de urbanização.
Dificilmente as antigas povoações conseguiam manter sua importância econômica. Possivelmente, tenha ocorrido o mesmo com a de Várzea da Ema [ou de Emas, conforme a maioria dos documentos públicos].  Adquirindo o status de povoado, por algum fator, a pequena povoação às margens do Rio dos Porcos entrou em decadência, possivelmente, com o surgimento da povoação de Catingueira, em local de melhor acesso. Cortada por uma estrada que ligava as vilas de Patos e Piancó, a fazenda de Catingueira passou a adquirir importância e tornou-se uma coordenada geográfica na região, na segunda metade do século XIX, exatamente quando a Povoação de Várzea da Ema começava a declinar (3).
Outros registros históricos sobre a mencionada povoação, localizada às margens do Rio dos Porcos e distante cerca de meia légua da sede da histórica Fazenda do Campo Grande, aparecem em Relatórios e Falas dos Presidentes da Província da Paraíba, datadas 1868 e 1870. Distante da principal estrada que cortava o sertão do Piancó, a Povoação de Várzea da Ema permaneceu esquecida até a primeira década do século XX, quando novamente passou a ter uma significância econômica. Antes, ocorreram vários fatos em sua história dignos de registros.
Em 1860, passou pelo território do futuro município de Emas, o Dr. Luís Antônio da Silva Nunes, presidente da Província, que objetivando conhecer in loco as necessidades do interior, realizou uma excursão pela Paraíba, saindo da capital em 17 de setembro daquele ano, percorrendo os termos de Pilar, Ingá, Campina Grande, Cabaceiras, São João do Cariri, Teixeira, Piancó, Souza, Catolé do Rocha, Pombal, Patos, Pocinhos, Alagoa Nova, Areia, Bananeiras, Independência (hoje Guarabira), Mamanguape, Alhandra e Pedras de Fogos.
O referido presidente retornou à capital paraibana, após trinta e dois dias, tendo percorrido a cavalo mais de 292 léguas. Da Fazenda Catingueira, núcleo da atual vizinha cidade de mesmo nome, saiu Sua Excelência com destino à Fazenda Angicos, no atual município de Emas, onde chegou na manhã do dia 28 de setembro de 1860, uma sexta-feira. Na época, o jornal 'O IMPARCIAL', que circulava na capital paraibana, assim noticiou o fato:

"No dia seguinte, 28, às 6 horas e meia da manha, continuou s. Exa. a viagem, tendo de tomar pouso na Fazenda Angico, propriedade do Sr. José Lopes da Silva, subdelegado de Piancó, onde apeou-se S. Exa. às 8 horas e quarenta minutos, depois de percorrida a distância de quatro léguas.
A fazenda Várzea do Ovo dista de Angico duas léguas, aquém desta, tem sua lenda muito interessante, que prova o quanto conseguem a constância de mãos dadas com a economia: "Esse nome (Várzea do Ovo) provém de ter uma madrinha dado a um afilhado um ovo, que, a pedido desta, foi deitado em uma galinha, daí saiu um pinto, que cresceu e tornou-se uma galinha, que produziu muitos ovos, estes pintos, vendeu-se os ovos e galinha deu dinheiro para se comprar uma novilha, que produziu também. E afinal o dinheiro de ovos, galinhas, novilhas e mais descendentes deu dinheiro para se comprar uma fazenda, que veio a ter essa denominação; dando um ovo para tudo isso"(4).

Homem de reconhecida cultura, o Dr. Silva Nunes em 15 de junho de 1860, apresentou à Assembléia Legislativa Provincial, um substancial Relatório, abordando as condições em que encontrou a Província, que ainda hoje, serve como fonte de pesquisa para a história administrativa da Paraíba. Assim, o Dr. Silva Nunes entrou para a história de Emas como sendo o primeiro governante da Paraíba há pisar em seu solo.
Natural do Rio Grande do Sul, Silva Nunes diplomou-se em ciências jurídicas pela Faculdade de Direito do Recife, em 1854. Por Carta Imperial datada de 20 de março de 1960, foi nomeado presidente da Província da Paraíba, empossando-se no referido cargo aos 17 dias do mês seguinte. Durante sua administração criou a freguesia de Misericórdia (hoje Itaporanga) e a vila de Pedra de Fogo, aos 11 de julho e a 6 de agosto de 1860, respectivamente (5).
Casado com a senhora Joana Silva Nunes, filha do Marquês de Muritiba, deixou o governo da Paraíba em 17 de março de 1861, após ter sido eleito deputado geral, pela Província do Espírito Santo. Administrador probo, "tudo quanto se refere a objeto de serviço público foi rigorosamente examinado pelo digno presidente: a instrução pública, a magistratura, as cadeias, as matrizes, as obras públicas, a guarda nacional, as municipalidades, a polícia, etc." (6). Antes de Silva Nunes, "nenhum presidente tinha ainda visitado a Província da Paraíba em toda a sua extensão" (7). E quando deixou a referida Província na tarde do dia 26 de março de 1861, "ao embarcar o Sr. Silva Nunes, em companhia de sua esposa d. Joana da Silva Nunes e de sua irmã, d. Maria Tereza, fez questão de abraçar, um a um, a todos os senhores que se dignaram em acompanhá-lo, e mostrou comovido ao separar-se dessa porção de amigos e correligionários que o honraram durante o tempo em que administrou esta Província" (8).

Relatório do Dr. Silva Nunes - 1860

Primo e amigo íntimo do grande poeta Álvares de Azevedo, de quem era confidente, o Dr. Silva Nunes representou a Província do Espírito Santo na Assembléia Geral de 1861 a 1865. Posteriormente, governou a Bahia de 16 de agosto de 1875 a 5 de fevereiro de 1877.  Anos depois da morte prematura do grande poeta, organizou parte de sua produção literária no livro 'O conde Lopo' e publicou-o em 1886, através da Tipografia Leuzinger, no Rio de Janeiro (9). Nascido em 1831, o Dr. Silva Nunes faleceu em 1911, aos oitenta anos de idade incompletos.
Quanto ao anfitrião José Lopes da Silva, senhor e proprietário da Fazenda Angicos, era filho do sargento-mor Manoel Martins Lopes, a quem cabe a fundação da referida fazenda, cuja Casa Grande foi construída em 1792 e ainda hoje ostenta a influência que seus antigos proprietários possuíam.
Fazendeiro influente, filiado às hostes do Partido Conservador, Zé Lopes ocupou com distinção o cargo de subdelegado do município de Piancó. Membro da antiga Guarda Nacional, foi distinguido com a patente de Tenente Coronel, tornando-se Comandante do 20º Batalhão estacionado na Vila do Piancó. Por ato datado de 28 de setembro de 1868, foi suspenso de suas funções. No entanto, em 21 de outubro de 1878, o presidente da província reintegrou-o ao referido posto.



Casa Grande da Fazenda Angicos, construída em 1792,
onde em 1860, seu proprietário recebeu a visita
do Dr. Silva Nunes, presidente da Província


Major Wenceslau Lopes,
o primeiro filho de Emas eleito deputado estadual

Em primeiras núpcias, casou-se com Francisca Leite da Silva, de cuja união, nasceram entre outros, os seguintes filhos:
1. Wenceslau Lopes da Silva (major da Guarda Nacional), fazendeiro e político influente, ligado politicamente ao presidente e senador Álvaro Machado, elegeu-se deputado estadual por três legislaturas, ainda no início do período republicando, tendo permanecido na Assembléia Legislativa de 1896 a 1907. Deixou ilustre descendência. Foi primeiro filho de Emas a ocupar uma cadeira no Legislativo Estadual, após a proclamação da República.
2. Antônio Lopes da Silva (Major Totó), nascido em 1880, senhor e proprietário da Fazenda Saudade, no atual município de Emas. Fiscal do Consumo Federal, casou-se com Zulmira Ernestina Leite de Araújo, filha do Dr. José Peregrino de Araújo, desembargador e ex-governador da Paraíba. O referido casal deixou grande e importante descendência (10).
Em 1879 nascia no território do futuro município de Emas - àquela época, parte integrante do município de Piancó - Francisco Lopes de Souza, filho do José Lopes de Souza e Ana Lopes da Silva Loureiro (Mãe Naná). Vocacionado para sacerdócio, foi o primeiro filho da futura cidade de Emas há ordenar-se padre.  
Exerceu seu ministério em Piancó e em Cajazeiras. Nessa última cidade, durante o ano de 1924, ocupou o cargo de diretor do Colégio Padre Rolim, onde exerceu com destaque e eficiência, a função que lhe foi confiada (11). Em 1936, foi nomeado vigário da histórica Matriz de Santo Antônio, de Piancó, ali permanecendo por pouco tempo. Intrépido, o padre Lopes faleceu no dia 7 de fevereiro de 1951 (12), deixando uma longa lista de serviços ao povo católico do sertão do Piancó.
Outro filho ilustre da futura cidade de Emas foi o Dr. Manoel Leite de César Loureiro, nascido na Fazenda Angicos, em 1844. Diplomado pela Faculdade de Direito do Recife (1865), fixou residência em Piancó, onde exerceu a advocacia e militou na política, elegendo-se presidente da Comissão do Partido Conservador, naquele município, em 1870. Eleito deputado provincial, ocupou uma cadeira na Assembléia Legislativa, durante as legislaturas de 1872-1873 e de 1874-1875.
Era ainda deputado quando foi nomeado para ocupar o juizado municipal de Catolé do Rocha, no alto sertão paraibano. Casado com dona Francisca Rodrigues de França Leite, deixou ilustre descendência. O Dr. Manoel Leite foi o primeiro filho da futura cidade de Emas a conquistar um diplomar superior, foi seu primeiro advogado e o primeiro emense a ocupar na Assembléia uma cadeira de deputado.
Seu filho, Nicolau Leite de César Loureiro, nascido na Fazenda Angicos em outubro de 1869, embora não tenha cursado direito, possuía amplos conhecimentos na ciência de Ulpiano, tendo ocupado o cargo de adjunto do Promotor Pública da Comarca de Piancó, em 1896. Ali também foi primeiro suplente de delegado de polícia (1903), e, ingressando na política, elegeu-se vereador em 1935. Escolhido por seus pares para ocupar a presidência da Câmara Municipal, nessa condição, assumiu interinamente os destinos políticos do referido município, em 1937. Ocupava ainda a presidência do legislativo piancoense quando veio a falecer em 2 de janeiro de 1941. Foi casado em primeiras núpcias com Ana Lopes e, em segunda, com dona Maria do Desterro. Entre seus filhos, destacaram-se Basiliano Lopes Loureiro, que foi prefeito nomeado de Piancó (1935) e Severino Lopes Loureiro, o professor Loureiro, que exerceu seu magistério em Campina Grande, onde adquiriu e manteve até sua morte, o Colégio Alfredo Dantas. 

Nicolau Leite César Loureiro e família

Durante o século XIX, o território que mais tarde constituiria o município de Emas era formado por várias fazendas, entre as quais se destacavam: Riacho dos Bois, propriedade do Coronel João Leite Ferreira (2º do nome); Campo Grande, propriedade do major José Alves da Silva; Poço Escuro, propriedade de Francisco de Paula e Silva; Angicos, propriedade de Nicolau Leite César Loureiro e Jenipapo, propriedade de Inocêncio Leite Ferreira (13), onde cultivava-se o algodão  mocó em grande quantidade e mantinha-se extensa criação de gado.
É importante registrar que o Cel. João Leite Ferreira, em Piancó, foi administrador da Freguesia (1823), comandante da Guarda Nacional (1831) e membro do Esquadrão de Cavalaria (1841) Filiado às hostes do Partido Liberal, sem sombra de dúvidas, foi a maior estrela política do sertão do Piancó, durante a primeira metade do século XIX, tendo, inclusive, comandado forças contra Pinto Madeira (1832) e elegido-se deputado provincial (1840).
Registra a tradição local, que no início do século XX, Joaquim Nunes de Gouveia, antigo morador da povoação de Emas, desenvolveu os esforços necessários para a realização da primeira feira na localidade, tendo sido também significativa a sua contribuição ao desenvolvimento urbano da futura cidade. O mesmo era filho de João Nunes Tavares, que chegou ao atual município de Emas em 1906, já viúvo, procedente da antiga povoação, hoje, cidade de Imaculada-PB. Aqui, comprou ao senhor José da Silva Cavalcanti, parte do sítio Várzea de Emas, onde construiu uma casa e passou a residir com sua família.

Aspectos da cidade de Emas no passado

A presença de Joaquim Nunes de Gouveia somente é registrada na região a partir de 1917. Viúvo, casou-se com dona Maria Pordeus Dantas, procedente de Pombal. E, na Várzea de Emas construiu uma casa e instalou uma pequena mercearia. É oportuno registrar que antes do mesmo chegar à região, a povoação de Várzea de Emas já existia, embora encontrasse decadente. Para sua fundação fortemente contribuíram os senhores José Lopes da Silva e o coronel João Leite Ferreira (2º do nome).
Ao senhor Joaquim Nunes de Gouveia cabe o reconhecimento pelos esforços desenvolvidos no sentido de fazer com que a povoação da Várzea de Emas progredisse. E assim o fez quando instalou sua mercearia, que em pouco tempo passou a abastecer a população da região com gêneros alimentícios vindos do Brejo de Areia.
Ao referido patriarca também deve-se a instalação da primeira bolandeira a vapor na localidade, passando a beneficiar grande parte do algodão que era produzido na região e que funcionava num antigo prédio, que anos mais tarde foi demolido para dar lugar a atual Escola Estadual de Ensino Fundamental Padre José Lopes.

Aspectos da cidade de Emas no passado

Assim, no início do século XX, Emas era um simples agregado de casas sem importância econômica, que integrava o extenso município de Piancó, na condição de termo do distrito de Catingueira, criado no final do século anterior.
Em idos de 1923, a Firma Araújo Rique & Cia, em parceria com o senhor Manuel Pereira Filho, instalou na Fazenda Várzea Nova, uma grande máquina a vapor para o beneficiamento do algodão produzido na região. Em pouco tempo, esse empreendimento determinou o fechamento da pequena usina fundada por Joaquim Nunes, em Emas.

Antônia Loureiro

A atual capela de Santa Terezinha do Menino Jesus teve sua construção iniciada em 1934, sob um terreno doado por dona Maria Joaquina da Conceição (viúva de João Nunes Tavares). Na oportunidade, figuraram como construtores Severino Leite Ferreira e Manoel Antas Pegado. Para a construção da referida capela, fortemente contribuíram o senhor Manoel Nunes Tavares e dona Antônia Loureiro. No dia primeiro de outubro daquele mesmo ano, celebrou-se no novo templo a primeira missa, pelo padre Abdon Pereira, vigário de Piancó.

Ruínas da Antiga Usina Araújo Rique & Cia

Em 1936, segundo relato de 'A União', existia na localidade uma usina de descaroçar algodão e uma tecelagem manual. O transporte de mercadoria e de pessoas era feito por três caminhões pertencentes a proprietários locais. Praticamente não existia vida social no povoado. Existiam dois cafés e um jogo de bilhar, localizados no início da atual Rua José Celino, onde os moços da localidade se divertiam. Ainda hoje é possível observar os antigos casarios de Emas, nesse trecho da cidade, apesar das fachadas de várias residências já terem sido alteradas. 
É importante ressaltar que o efetivo desenvolvimento da Povoação Emas registrado na primeira metade do século XX somente se desencadeou após a instalação da Usina de Araújo Rique, que passou a comprar todo o algodão produzido na região, empregando uma significativa quantidade de pessoas, e, indiretamente, beneficiando um número ainda maior, vendendo a fibra descaroçada para Patos e Pombal. Dessa empresa, posteriormente, o senhor Nestor Pereira de Morais, que foi vice-prefeito e nessa condição administrou o município de Emas interinamente, tornou-se um de seus sócios.

Continua...

NOTAS
1. AMORIM, Luís Otávio (Coord.). Enciclopédia dos municípios paraibanos. João Pessoa: Correia da Paraíba, 1976, pág. 186.
2. SAINT-ADOLPHE, J. G. R. Milliet de. Diccionario Geographico, Historico e Descriptivo do Imperio do Brazil. Tomo Segundo. Pariz: J. P. Aillaud Editor, 1845, pág. 297.
3. Um dos principais incentivadores do desenvolvimento da povoação de Catingueira, foi o coronel Firmino Aires Albano da Costa (filho do patriarca Pedro Firmino da Costa), que elegeu-se deputado provincial e ocupou uma cadeira na Assembléia Legislativa, nas legislaturas de 1886-1887 e de 1888-1889. Nesse período, por força da Lei Provincial nº 386, de 9 de setembro de 1887, a povoação de Catingueira tornou-se sede de um distrito de paz e como termo judiciário da Comarca de Piancó, manteve a denominação de povoação de São Sebastião da Catingueira, até 23 de julho de 1890, quando passou a denominar-se de povoado do Jucá (Decreto nº 27).
4. SEIXAS, Wilson. Op. cit., pág. 80.
5. PINTO, Irineu Ferreira. Datas e notas para a história da Parahyba (II). João Pessoa: EDUFPB, 1978, pág. 284-285.
6. SEIXAS, Wilson. Op. cit., pág. 17.
7. Idem, pág. 17-18.
8. SEIXAS, Wilson. Op. cit., pág. 58-59.
9. SILVA, Luciana Fátima da. Álvares de Azevedo: o poeta que não conheceu o amor foi noivo da morte. São Paulo: Annablume, 2009, p. 26.
10. CAVALCANTI, Francisco Pereira; CAVALCANTI, Franciraldo Loureiro. Memorial das famílias Pereira Cavalcanti e Lopes Loureiro. João Pessoa: UNIPÊ, 2006,  pág. 231 e 314.
11. MARIZ, Celso. Cidade e homens. 2 ed. João Pessoa: A União, 1985, pág. 96.
12. CAVALCANTI, Francisco Pereira; CAVALCANTI, Franciraldo Loureiro. Op. cit., pág. 306.
13. BRASILINO FILHO, Clodoaldo. Piancó: 250 anos de história. João Pessoa: Imprell, 2003, pág. 17.

domingo, 4 de dezembro de 2011

EMAS - PARAÍBA

ASPECTOS HISTÓRICOS DO MUNICÍPIO
DE EMAS - PARAÍBA (I)

José Ozildo dos Santos

O desbravamento do território que viria a formar o município de Emas (1), prende-se ao ciclo da criação do gado e constitui-se num capítulo especial da história do Sertão do Piancó, cuja efetiva ocupação teve início ainda no final do século XVII, promovida por bandeirantes paulistas e baianos, vindos do São Francisco, que dividiram aquelas terras entre si. Naquela época, todo o sertão do Piancó era habitado por tribos indígenas, pertencentes à grande nação tarairiús, verdadeiros tapuias do Nordeste, que desde os primórdios da colonização se opuseram à penetração lusa e à conquista de suas terras.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NORTERIOGRANDENSES ILUSTRES - VII

MANOEL GOMES DE MEDEIROS DANTAS

José Ozildo dos Santos

J
ornalista, político, magistrado, historiador, jurista e educador Manoel Dantas nasceu a 26 de abril de 1867, na Fazenda ‘Riacho Fundo’, município de Caicó, na região do Seridó potiguar. Com sua avó materna, aprendeu as primeiras letras. Em 1879, passou a freqüentar uma escola de Latim, que existia na cidade de Caicó, antiga Vila do Príncipe, dirigida pelo talentoso professor Manoel Pinheiro Brasil. Transferindo-se para a cidade do Natal, em 1884 concluiu o secundário no Ateneu Norte-riograndense. No ano seguinte, ingressou na tradicional Faculdade de Direito do Recife, diplomando-se em Ciências Jurídicas e Sociais, a 29 de novembro de 1890.

domingo, 6 de novembro de 2011

NORDESTE

REALIDADE NORDESTINA

José Ozildo dos Santos

Secas,
Secas, Secas,
Secas, Secas, Secas,
Secas, Secas, Secas, Secas,
Secas, Secas, Secas,
Secas, Secas,
Secas.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

NORTERIOGRANDENSES ILUSTRES - VI

ADAUTO DE MIRANDA RAPOSO DA CÂMARA


José Ozildo dos Santos


A
dvogado, político, jornalista, educador e historiógrafo, nasceu a 14 de março de 1898, no Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte. Foram seus pais Teódulo Adolfo Soares da Câmara e Áurea Augusta Miranda da Câmara. Viveu os primeiros anos de sua vida em Mossoró e São José de Mipibu.
Em 1907, sua família transferiu-se para Natal, onde seu pai passou a exercer suas funções como professor público. Dois anos mais tarde, o jovem Adauto Câmara matriculou-se no Ateneu Norte-Riograndense, ali fazendo seus estudos básicos. E, era ainda muito jovem quando tornou-se funcionário dos Correios, na capital potiguar.

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